Fraternidade e saúde pública
Nildo Lage
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![]() Contudo, por ser uma espécie sedenta de novo, o homem tornou-se um ser incansável na busca de novos horizontes, e foi essa ambição, aliada ao insaciável desejo de romper barreiras e ultrapassar o empírico, que, no Segundo Reinado, garantiu progressos admiráveis: a saúde já se expandia de atribuições sanitárias nas juntas municipais, do controle de navios à saúde dos portos. O que não mudou foi a histórica carência de profissionais, pois, tanto no Brasil Colônia quanto no Brasil Império, médico era uma exclusividade da Família Real. Esse fato estimulou, assim, a proliferação dos boticários — farmacêuticos que faziam desde partos a cirurgias de emergência. Tamanha carência levou Dom João VI a fundar, em 1808, na cidade de Salvador, o Colégio Médico--Cirúrgico, no Real Hospital Militar, e, logo depois, a Escola de Cirurgia do Rio de Janeiro. Foi no período do alvorecer da República até o início da Era Vargas que um novo sistema em forma de organização jurídico-política foi criado, como arquétipo peculiar do capitalismo. Esse surgimento favoreceu o alastramento de epidemias, pois poucos eram beneficiados, preocupando o então presidente Rodrigues Alves, que nomeou o médico Oswaldo Cruz como diretor do Departamento Federal de Saúde Pública para levar a cabo a desafiante incumbência de erradicar a epidemia de febre amarela que havia dominado a cidade do Rio de Janeiro, a então capital do Brasil. Desse ponto em diante, avanços relevantes aconteceram, principiando a escalada do desenvolvimento da saúde no Brasil, e siglas surgiram como sementes em terra fértil: Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERU), Fundo de Assistência e Previdência do Trabalhador Rural (Funrural), Superintendência de Campanhas da Saúde Pública (Sucam), Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps), Fundo Nacional de Saúde (FNS), Sistema Único de Saúde (SUS). E, como na era dos grandes navegadores, a bússola do humano se orienta pelas cobiças do ego. E esta, quando se volta para a rota da saúde, faz muitos naufragarem, outros terem finais trágicos e poucos aportarem no porto seguro de uma saúde decente. Pois, na saúde, o trabalho de um se torna garantia de ostentação da vida e do bem-estar do outro. Infelizmente, a situação de muitos que dependem do Poder Público para cuidar desse bem precioso se agrava a cada dia, e a vida se torna uma trajetória de dor, sofrimento e morte. Morte que passa a ser rotina no dia a dia daqueles que apenas observam a angústia e a tristeza e desviam o olhar com apatia, como se o outro não fosse humano. Os problemas são tantos que a saúde pública chegou ao seu limite. E é imperativo disparar o alarme do humano para que ele desperte a consciência de que saúde, por menor que seja o problema, deve ser um ato de emergência e fraternidade, é a essência que purifica corações, abre os olhos para a vida, auxiliando-nos a notar o outro como semelhante e a nos sensibilizar com a sua dor, o seu problema, a sua vida. Pois o florescer do espírito fraternal desperta o afeto pelo outro, impulsionando o homem a ambicionar a edificação de um mundo melhor e impedir o extermínio da esperança.Para isso, é necessário esgotar o excesso de toxina que atingiu o ícone do homem, o coração, que bombeia cada vez mais forte, espargindo esse veneno para um ponto que atinge a essência genuína do humano: a alma. E, quando se atinge esse ponto, o veneno adquire poder devastador: assassina a razão, sufoca a consciência e converte muitos em feras, que destroem sonhos, pessoas e vidas e vão deixando uma trilha de aversão e miséria numa velocidade espantosa. Isso vem transformando o planeta num universo de labirintos sangrentos, onde cada um se resguarda no próprio mundo para não se tornar uma vítima do mal do século: a violência. Como conter uma humanidade que sente prazer em esgotar a própria essência? A enfermidade da saúde pública no Brasil chegou ao estágio de pandemia. Uma verdadeira aberração dos Direitos Humanos, da própria vida. A proliferação da crise atingiu uma proporção que saiu do controle e se tornou maior do que as endemias que o setor deve combater para oferecer ao brasileiro o mínimo de dignidade através de uma saúde decente, em face das altas taxas de impostos inseridos em produtos e serviços para que as aplicações no setor se elevem. Contudo, a eficácia do vírus transmitido pela espécie política se alastra graças à ineficiência do anticorpo justiça, levando à vulnerabilidade dos dependentes, que ficam em estado de abandono. Isso, aliado à negligência dos administradores, abala, dia após dia, as estruturas do SUS, que não consegue desinfetar as suas engrenagens, completamente dominadas pelos micro-organismos da irresponsabilidade e pela bactéria da desonestidade, originando a célula cancerígena do sistema político brasileiro, cientificamente comprovado por contrafação. O surgimento do câncer popularmente chamado de corrupção, mesmo com o acelerado avanço da ciência, conseguiu apenas um genérico para suavizar a dor dos dependentes do SUS, mergulhados num precipício que inverte o próprio significado: Sem Uma Solução. Essa decadência afetou o sistema de tal maneira que a qualidade do atendimento chega a ser humilhante: hospitais em estado precário — alguns sem condições de funcionamento —, superlotação, falta de remédios e de leitos, equipamentos danificados, mortes por falta de atendimento, negligência médica, desrespeito. Tudo isso transformando a vida do cidadão num Sofrimento Unificado e Sórdido. Se listarmos os males da saúde do País, depararemos com o caos enfrentado pelo SUS, que, desde o seu nascimento, no seio da Constituição de 1988, tem como esperança se tornar o Sonho Único de Ser, através de uma saúde que atenda às necessidades do brasileiro. Mas, como no Brasil tributos são o combustível que acelera o “impostômetro”, foi necessário reabastecê-lo para fortalecer esse sonho. E, desse devaneio, nasceu a brilhante ideia que gerou a criação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) como alternativa para gerar recursos adicionais para suavizar os problemas do setor. A partir de então, uma pergunta paira à procura de resposta: Por que não está dando certo? Erro de gestão, falência do modelo ou insuficiência de verba? Os burburinhos surgem na alçada federal, ecoam na estadual, perdem a força e silenciam nos municípios. E, mesmo camuflados, chegam aos ouvidos de quem necessita de cuidados com a saúde, com uma velha e esfarrapada desculpa: deficiência de recursos. O fato é que os problemas vão além da falta de verbas, pois o bom funcionamento do órgão depende do interesse e da competência de quem o administra — o exemplo está em algumas prefeituras que chegam a oferecer atendimento de primeira qualidade. Mas como é de praxe, a maioria dos representantes públicos só se preocupa com o próprio umbigo e, ao tomarem posse, a primeira providência é para si e para os que comem na mesma mesa. Se não semearmos a fraternidade nos corações desses homens para que a saúde pública se torne pelo menos justa para com os seus dependentes, uma doença ainda mais crônica infestará o SUS: a indignação. Indignação por apreciar a dor, o desespero de homens, mulheres, crianças, idosos, abandonados por corredores e enfermarias devido à falta de leitos nos hospitais públicos e conveniados, e com os jornais apresentando em horário nobre a farra dos desvios e o superfaturamento do dinheiro público. E o pior: a cara de pau dos administradores que se exoneram e ainda se gabam de que a justiça foi feita. Dessa forma, o SUS está se tornando uma Saída Única para Salvar os SEM: sem teto, sem saúde, sem educação, sem justiça social, sem autonomia e que vegetam com as migalhas dos programas sociais unificados pelo Cadastro Único. Uma revolução para os governantes, que fazem na vida do brasileiro um grande diferencial: de um lado, presidente e vice-presidente, Poder Judiciário e seus altos funcionários, classificados na hierarquia social como cidadãos privilegiados. Do outro, o cidadão comum, rotulado simplesmente como sem direitos.Os privilegiados são amparados por planos de saúde que só atendem a hospitais particulares de alto nível. A eficiência desse atendimento é tamanha que, por um simples espirro ou alteração de pressão, UTIs móveis acionam os seus motores, disparam as sirenes para abrirem caminho e oferecerem atendimento de emergência máxima. É o caso do fato ocorrido com o ex-presidente Lula no Recife, que foi levado às pressas para o Real Hospital Português para resolver um simples problema de pressão, quando poderia ter recorrido aos sofisticados serviços que ofereceu, no seu governo, em um PSF do bairro, enquanto os sem direitos continuam amontoados em corredores e enfermarias, onde muitos morrem pelo abandono dos hospitais públicos, cujas emergências são rotina. Para dissimularem, fazem “engessos”, apresentando números e belas fachadas para encobrirem as feridas. Mas sabemos que há tempos a saúde do Brasil não vai bem das pernas. Estremece, tropica, retroage... É submetida a cirurgias de emergência na tentativa de melhorar a qualidade, equilibrar os passos... Não tem jeito. Governo após governo, aumentam os descasos e reduzem os investimentos. Investimentos que interrompem vidas, como o caso dos gêmeos de Belém, que chocou o País. Sabemos que é necessário investir muito para se chegar ao básico, mas, se o dinheiro destinado fosse realmente aplicado — os 7,6% do PIB —, milhares de vidas seriam amparadas... Mas, para isso, é preciso uma dedetização para que o vírus da corrupção que infestou o sistema de saúde, afetando todos os órgãos, seja combatido. Diante de tantas ameaças, sem nenhuma perspectiva de amparo, é melhor seguirmos as recomendações do Ministério da Vida, que adverte: “Depender do SUS é antecipar o suicídio. É ser enterrado sentado sem direito a caixão e vela”. A humanização da saúde seria a solução? Mesmo com os altos progressos da saúde pública nas últimas décadas, que facilitaram a sua democratização — o Programa Nacional de Imunizações erradicou males como a paralisia infantil e assumiu o controle da Aids —, estamos aquém de uma saúde que atenda a população, pois implantar um sistema de gestão numa sociedade contemporânea requer mudança de atitudes para que a banalização não seja uma aliada para acelerar a desumanização. Pois o humano, na ânsia de superar fronteiras, foi deixando pelo caminho os aditivos de valores, e é exatamente a deficiência desse antídoto que dificulta as ações da Política Nacional de Humanização da Atenção e da Gestão em Saúde (PNH) ou que o projeto de humanização no SUS, conhecido por HumanizaSUS, seja aplicado para aliviar a dor de muitos, cujas vidas dependem desses serviços. Essas barreiras nos distanciam do alvo de uma saúde sem excluídos, e o discurso humanamente correto, na realidade, não passa de hipocrisia de um governo que não tem políticas públicas nem ambições para sanar os problemas daqueles que ambicionam condições mínimas para usufruírem do direito à cidadania. Porém, adotar uma Política de Humanização, na qual a transversalidade é o grande desafio, estabelece versatilidade para superar a deficiência de solidariedade e implantar redes cooperativas. Essas ações vão além de atos solidários. É necessário comprometimento. Comprometimento que transforme o individualismo em atuações coletivas, o olhar unificado num foco que atinja um todo... Afinal, humanização é tematizar o sócio-histórico e integrá-lo aos princípios da integridade humana, alargando assim os horizontes do cultivo da saúde para que as limitações, principalmente na área profissional, não se transformem em empecilhos que impossibilitem o humano de dar um passo adiante e romper a distância entre a desordem e a qualidade absoluta, para que possa converter o ambiente de trabalho num local sedutor, e que isso promova o despertar da alegria, da felicidade, tornando o trabalho um ato prazeroso.Esse clima promove avanços que geram o contentamento do homem em atuar na sua área profissional, atingindo melhorias no oferecimento de serviços — comércio, bancário, transporte —, o suficiente para atender às necessidades do humano como cidadão e profissional, e esse acesso a serviços e bens proporciona qualidade de vida. Vida que não necessita ser comprimida em elevadores e meios de transportes superlotados, em filas de bancos a perder de vista... Vida que, ao chegar na trajetória de cuidados distintos, não humilhe os portadores de necessidades especiais, idosos e gestantes. Mas, entre sussurros e gemidos, uma pergunta não pode ser reprimida: É possível uma nação doente promover uma educação decente? É imperativo aprovar leis que interrompam planos de saúde para que os representantes públicos sintam no bolso — ou na pele — que saúde não é clínica, hospitais, PSFs espargidos pelos bairros. É preciso um olhar diferenciado para fazer funcionar os mecanismos e compor a fórmula do remédio para curar a saúde do País, para, somente então, sarar a do cidadão de epidemias que se alastram proporcionadas pelo descuido e pelo descaso das autoridades competentes, dando, assim, um basta em governantes que fazem investimentos a conta--gotas, enquanto as torneiras da corrupção jorram livremente. Por isso é importante aprovar leis que determinem que esses “eficientes” representantes matriculem os seus filhos e dependentes em escolas públicas, para que a metamorfose do ente amado, provocada pela violência, e o desinteresse do professor — devido à má remuneração e às péssimas condições de trabalho — estimulem melhorias. Quem sabe assim a fraternidade seja inserida como instrumento pedagógico para que o ambiente escolar volte a regar a sementeira do afeto, do respeito, do amor pela educação, transformando esse mundo de ambições e discórdias em um lugar melhor para se viver, pois exercitar a prática da fraternidade é plantar uma semente de esperança em corações ansiosos para descobrirem o novo, e que esse novo seja usufruir de uma saúde que não abandone nem mate e de uma educação que acolha, não que exclua. Pois a fraternidade deve ser trabalhada para proporcionar o estreitamento das relações humanas. Mesmo a contragosto, temos que admitir os avanços do Sistema Único de Saúde nas suas duas décadas de existência. Progrediu surpreendentemente: saiu da micro para a megaestrutura. Para tanto, o governo necessitava de recursos, e, como no Brasil aumento de arrecadação significa inserção de impostos, o presidente Itamar Franco acatou a sábia ideia do então ministro Adib Jatene, que indicou a porta para se esquivar do Inciso IV, artigo 167 da Constituição Federal, que veda
a vinculação de receita de impostos a órgão, fundo ou despesa, ressalvadas a repartição do produto da arrecadação dos impostos a que se referem os artigos 158 e 159 e a destinação de recursos para as ações e serviços públicos de saúde e para manutenção e desenvolvimento do ensino
e criou a Contribuição Provisória sobre a Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de Natureza Financeira (CPMF) para substituir o Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira (IPMF), com fins específicos de custear a saúde pública e a Previdência Social e gerar o Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza. E, assim, o que foi criado para ser provisório se acomodou e permaneceu sem previsão de partida.Sem previsão e sem direção, o maior programa social do planeta — o Bolsa Família — abocanha a maior fatia desse montante, e com tantas bocas famintas não sobram recursos para a saúde, pois o dinheiro que seria destinado a esse setor mudou de percurso e migrou para projetos sociais. Mas como o brasileiro “não desiste nunca”, o SUS ainda é uma esperança... Afinal, Somos Uma Sociedade, e tudo que precisamos é nos organizar, aprender a votar e permitir que a fraternidade seja o antídoto para curar muitos males, principalmente os da saúde pública, através do uso da justiça por meio dos que são eleitos para administrar os recursos destinados a amparar o bem mais precioso: a saúde. Saúde que deve ser encarada além do bem-estar, do organismo saudável... Saúde é prevenção... E prevenção exige cuidados, atenção especial e investimento. Pois um corpo profícuo é uma raridade numa era em que alimentação saudável se torna um ato difícil de praticar devido à presença de agrotóxicos na maioria dos alimentos, principalmente os geneticamente modificados. Não é preciso recorrer ao dicionário para sabermos que saúde é definida como bem-estar... Mas devemos ter consciência de que esse bem-estar está associado à qualidade de vida, e qualidade de vida não é só ingerir remédios para erradicar males, alimentar-se bem... Esse bem-estar começa em estar bem consigo... Consigo através de uma sociedade justa, em que a liberdade de expressão supere o abuso de poder e a carência de fraternidade, de amor pelo outro, seja asfixiada pela justiça. Para atingir essas metas, é preciso superar desafios, traçar caminhos seguros, e não através de barganhas e campanhas ou implantando programas para amenizar momentaneamente um surto, pois não existe campanha milagrosa nem programa salvador... O que funciona é aplicação em áreas de risco, trabalho preventivo, pois as saídas estão nas mãos de quem faz — os governantes —, basta determinarem que a lei seja cumprida, exigindo a aplicação de recursos nos devidos setores. Sabemos que sanar problemas da saúde no Brasil é um desafio para o governo, que se vê obrigado a fazer malabarismo para superar um dos maiores problemas do setor: assistências médica, hospitalar e ambulatorial. E esse desafio elevou a distância entre saúde pública e privada, impelindo milhões a recorrerem aos planos de saúde para se resguardarem, pois somente 40% dos investimentos destinados ao setor são aplicados na saúde pública. Mas temos que aceitar que, mesmo com os baixos investimentos e com a distância entre saúde pública e privada, o Brasil evoluiu consideravelmente e é reconhecido no planeta como referência no tratamento da Aids, um modelo no combate à mortalidade infantil e um recordista na realização de transplantes. E é preciso reconhecer que, mesmo sendo um modelo misto — no qual a iniciativa privada é livre para investir e disputar território —, o SUS surge como um exemplo, principalmente para países desenvolvidos, pois o seu modelo de prevenção sobressai como referência internacional e como um dos mais eficientes do mundo, e ainda destaca o Brasil como o país que mais vacina. E, por ter sido o primeiro do mundo a eliminar a poliomielite, a erradicar o sarampo, o Brasil fez do setor de Epidemiologia um dos mais eficientes do planeta, a ponto de criar vacinas em questão de dias. Esse avanço não proporcionou apenas melhorias na vida de milhões, mas também estendeu a expectativa de vida do brasileiro, e esse horizonte, a cada amanhecer, nos oferece uma nova oportunidade para resgatarmos valores ou prosseguirmos destruindo principalmente a chance de sermos felizes. E, ao abrirmos mão desse momento mágico, rejeitamos a oportunidade de fazermos do Brasil um país melhor para se viver, pois podamos das novas gerações o ensejo de fazerem algo que pode alterar o curso da trajetória humana e conduzi-la a um lugar onde a saúde seja amparo e a educação, uma garantia de vitória, pois a fraternidade imperará entre os homens.
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A verdadeira educação, emana das fontes silenciosas da sabedoria humana. Autor: Nildo Lage
terça-feira, 12 de março de 2013
FRATERNIDADE E SAÚDE PÚBLICA
MORTE...
MORTE...
Nildo Lage
Uma visitante indesejável que chega para ceifar. De tão auspiciosa, não emite ruídos, um sinal sequer para avisar a hora, nem pede licença para se apossar do que temos de mais precioso: a vida. E, mesmo sendo uma velha conhecida de todos, é o maior enigma da humanidade... Um mistério que a ciência não consegue revelar. Nem as religiões, com as suas múltiplas interpretações, obtêm entendimento que a traduza, pois ela extrai e guarda a sete chaves a essência humana — a alma —, num local onde somente as mãos do Pai tocam e onde apenas o Seu olhar é capaz de vislumbrar, transformando o caminho num paradigma peculiar do Criador.
O que se tem conhecimento é que essa passagem é a consumação de um curso que o humano — único mortal com autonomia para construir a felicidade, edificar sonhos e liberdade para escolher o caminho e reconstruir projetos para transformar o percurso do “viver” numa doce trajetória — não compreende.
Muitos tentaram desvendá-la, mas, século após século, milênio após milênio, é tida como um dos maiores segredos do universo, e, em meio a investigações, estudos, interpretações, ninguém consegue impedir que ela transite ameaçando a todos, que se protegem como podem para não embarcarem nessa nave.
Ante tantas dúvidas, perguntas ecoam e respostas não satisfazem curiosidades nem dissipam medos: por que morremos? Para onde vamos?
Esse questionamento ecoa, provoca tremores e silencia... Pois da morte sabemos apenas... NADA. As suas roupagens enganam, sua silhueta confunde os que surfam nesse mar de “inelutabilidade”, que jogam com a própria vida para dissimular a tensão provocada pela expectativa de um encontro com essa mensageira, que, sem o mínimo de misericórdia, decreta o momento do fim. É nesse instante que ela — a morte — nos encurrala e dá duas opções: morrer ou morrer.
Nesse cruzamento, a vida vislumbra o fim e não há nada mais a fazer a não ser olhar para trás, arrepender- se de erros, desvios, pedir perdão e se entregar, pois nenhum super-herói jamais criou dispositivos nem contraiu poderes e habilidades para se defender ou escapar das suas investidas. E, mesmo sendo ela ambiciosa, é insaciável por vidas, e todo ouro do planeta não é suficiente para negociar, pois sua visita é a sentença, a primeira porta para a eternidade.
A morte é uma realidade tão cruel que aterroriza pela perspicácia em espargir seus agentes em todas as direções, posicionar-se estrategicamente em todos os lugares: em casa — por meio da violência doméstica —; na escola — onde lápis e cadernos estão sendo substituídos por revólveres e pistolas. A eficiência dos seus radares, graças ao ultramoderno sistema de rastreamento, permite esquadrinhar uma vida nos pontos mais longínquos da Terra, pode transitar em vias fundamentais para tropeçarmos com ela ao sairmos de casa — seja como vítimas de um assalto, um sequestro relâmpago, uma bala perdida das polícias clandestinas... Ou até mesmo de uma bactéria, um vírus letal... Uma overdose... Até do trânsito, pela irresponsabilidade de motoristas embriagados, que fazem com que as estradas se transformem em abatedouros que executam mais do que muitas guerras.
Ante o inelutável, segredos irreveláveis, muitos seguem linhas diferentes, chegam a extremos guiados pela fé de que a vida não termina com a morte, como diz Joana de Angelis, psicanalista clínica e interdimensional:
A tua vida não termina no túmulo. Com essa consciência, aprende para a eternidade, reunindo valores que jamais se consumarão. Toda lição que liberta do mal se incorpora à alma como força de vida indestrutível. Fosse a morte o fim da vida, sem sentido seria o universo. A criação se esmaeceria e o ser pensante estaria destituído de finalidade. Tudo, porém, conclama o ser à glória eterna, à continuidade do existir, ao progresso incessante. Estuda e trabalha sem cessar, com os olhos postos no teu futuro espiritual, vivendo alegre hoje e pleno sempre.
Outros, como o filósofo alemão Von Humboldt, defendem que a morte não termina a vida, pois esta não se evaporará enquanto o indivíduo não cumprir a sua missão: “A morte não é um período que termina uma existência, mas um interlúdio somente, uma passagem de uma forma para outra do ser infinito”.
E, por ter linhas de interpretação aristocráticas, a morte se converte num tema discutido, temido, questionado, permitindo, assim, a abertura de espaços para contestações entre ciência e religião. Esses dois sentidos opostos, por mais que apostem as suas fichas, conseguem, no máximo, meras acepções.
As inúmeras facetas da morte nos obrigam, sobretudo, a parar, encará-la como passagem cogente. E são essas facetas que provocam discussões acirradas, pois, com tantos caminhos paralelos que impedem a compreensão, a única certeza é a de que um dia morreremos... Mas como? Por quê? E para onde seguiremos?
Diante de tantas perguntas sem respostas, a morte não se volta para replicar, prosseguindo no seu percurso, transformando-se num fenômeno tão indecifrável que se tornou cultural, social, religioso... E, apesar de muitos jogarem, brincarem com a vida, se desesperam, chegam a perder o sono pelo simples fato de participarem de um velório. Essa vulnerabilidade é o bastante para muitos se chocarem, se comoverem com a fragilidade humana perante o poder da morte.
É somente nesse instante que ela se torna instrumento de reflexão, pois só de nos fazer imaginar as perdas, a dor de uma separação e que a sua sentença é a finitude, converte-se na mola que impulsiona muitos a partir em busca de consolo que conforte o íntimo, experimentando, assim, o elixir da vida eterna: Deus.
Mas, com tantos deuses agindo para confundir, muitos erram de endereço e acabam adorando extorsões, o que faz com que partam crentes de que descansarão nos braços do Pai.
Segundo o dicionário, que tem uma definição exata para todos os termos, a palavra morte é tida como “o ato de morrer, o fim da vida”... Ao passo que a ciência, em constante processo de evolução, já chegou a defini-la como “parada cardiorrespiratória”. Com os progressos alcançados graças a uma mãozinha da tecnologia, mudou de conceito, pois o incremento da ressuscitação cardiopulmonar — procedimento de emergência em vítimas de paradas cardíacas — e da desfibrilação — aplicação de corrente elétrica — ampliou os horizontes do entendimento. Mesmo assim, não foi muito longe e simplesmente usa a expressão “morte clínica” para justificar as paradas cardiorrespiratórias irreversíveis, que provocam o óbito.
Já a Bíblia — fruto da inspiração divina — nos explica a morte em dois paralelos: no Velho Testamento, enfoca a morte física e, no Novo, a morte espiritual, sendo a primeira “a separação entre o espírito, ou a alma, e o corpo” e a segunda “a separação eterna do homem e de Deus”.
Mas a Bíblia, como fonte de revelação sublime, desnorteia os que acreditam interpretá-la para traduzir sinais, sinais que levam muitos a se aglomerarem atraídos por escólio. E assim vão surgindo religiões, a exemplo do budismo, que prega o renascimento — ou reencarnação — com a veemência de que a essência humana — a alma — é a mesma eternamente. O que muda é o sobe e desce na constante transferência de residência — corpo —, ocorrida entre a morte carnal e o renascimento, prosseguindo a alma no interior de outra pessoa.
Daí o equilíbrio dos seguidores do budismo ante a morte: absoluta certeza de que o espírito estará em paz e em constante processo de evolução, como declara o monge budista Nitiren Daishonin:
Se o mau carma do passado de uma pessoa não é expiado no presente, ela deve passar pelos sofrimentos do inferno no futuro. Mas, se experimentar extremas privações presentes por causa do Sutra de Lótus — livro sagrado —, os sofrimentos do inferno dissipar-se-ão instantaneamente.
Seguindo essa mesma linha, o hinduísmo vai um pouco além: palavras, atitudes, pensamentos compõem o tripé que sustenta a alma na Terra, e, como a lei que impera nesse universo é a Lei do Carma, a transição fica sujeita a influências de inúmeros fatores, entre eles a conduta da pessoa. Se esta não for correta, podem sobrevir mortes e nascimentos — a chamada Roda de Samsara, que venera a Lua como fonte de energia que ilumina o espírito e o deixa preparado para a transmigração, ou transferência da alma. A alma é a essência genuína do humano, não pode vagar e, imediatamente, habita em outra pessoa ou num animal, como declaram os textos hindus: “Assim como pomos de lado uma roupa usada e vestimos uma nova, assim o espírito se desfaz da sua indumentária de carne e se reveste de uma nova”.
Transitando numa ala paralela, está o espiritismo, cujos seguidores acreditam na existência da vida após a morte — também em outro corpo humano, e não no de um animal, como acredita o hinduísmo. Todavia, o julgamento é diferenciado: os praticantes de atos benéficos terão um grau de evolução mais elevado, e os praticantes do mal ficarão na berlinda — mas terão oportunidades para se redimirem por meio dos inúmeros processos de reencarnação.
Por isso, a morte não assusta os espíritas, pois o espírito usa o corpo como um automóvel para uma magnífica viagem de pesquisas, estudos e experiências que proporcionam o processo de evolução.
Já o islamismo encara a morte como uma passagem necessária para se chegar à vida eterna. Para tanto, o corpo torna-se um objeto insignificante — o que tem importância é a alma, que, uma vez expirada, faz a matéria perder o valor —, embora se siga um ritual pós-morte em que o corpo é revestido por três tecidos brancos e levado à mesquita.
Mesmo o corpo não tendo valor após a morte, a cremação não é permitida, por seus seguidores acreditarem que Alá — Deus — trará todos no último dia para serem julgados, e estes recomeçarão — no céu ou no inferno.
Por horizontes peculiares, a Igreja Católica Apostólica Romana acredita que, após o último suspiro, a alma tem três fadários: céu, para os salvos; inferno, para os condenados; ou purgatório, aos que terão uma segunda chance para se purificarem. Mesmo acreditando na singularidade, na eternidade da alma e que a mesma jamais retornará em outro corpo, prega a imortalidade e a ressurreição.
No intrincado jogo de interpretações, de viagens a olam haba — mundo vindouro —, o judaísmo transita em meio à fé e à crença, abrindo um leque entre ressurreição — onde a alma vaga à procura de um novo corpo para se alojar — e reencarnação — quando tudo é consumado e a alma regressa ao corpo de origem —, desnorteando, enleando, instigando novos questionamentos. Seus seguidores encaram o fenômeno da morte com alta dose de misticismo, acreditando que a alma é fortemente protegida por uma blindagem de sete intocáveis camadas.
É preciso irromper nessas trincheiras para que a morte seja consumada, é preciso ir além dessas barreiras para se chegar à camada formidável, que é a que mantém a alma conectada à matéria — o físico. Na verdade, esse ritual se inicia desde a infância, quando a vida é encarada como um procedimento infinito e em constante processo de mutação.
Na contramão, transitam os seguidores do candomblé, cuja visão sobre a morte é a de que esta é uma sequência de etapas. Para eles, a vida é ministrada por uma força vital, e a pessoa tem oportunidades de reverter atos e decisões para redirecionar o próprio destino. Seus seguidores acreditam piamente que a morte não é a consumação, e sim a consequência de influências.
Quando a morte é tratada pelo protestantismo, a interpretação bíblica impera e abomina-se a reencarnação... Para os seus seguidores, morrer é transcender, como declarou o pastor Fernando Marques, da Igreja Metodista Central de São Paulo, numa entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, (2001):
A morte é um período de transição para outra vida, e não se aceita a reencarnação. Durante a vida, os fiéis devem ter fé na palavra de Deus, que julgará o destino da pessoa no céu ou no inferno não por suas ações, e sim pela sua fé...
Numa linha genuinamente teológica, a Igreja Evangélica encara a morte nos princípios do Evangelho:
“Morrer para o mundo para que possa viver para Deus”. Para seus seguidores, a primeira morte — a física — ocorre com a separação do material e do imaterial, e a segunda — a espiritual — ocorre quando acontece a separação da pessoa e de Deus — são os não salvos —, resultando na abdução, que significa morte eterna.
Mas mesmo a morte sendo irredutível no cumprimento da sua missão, o homem é incansável na caça de respostas. Para tanto, não mede esforços para traduzi-la, ludibriá-la e, assim, se enche de coragem, solicita auxílio a tudo e a todos para atingir, pelo menos, a essência do seu significado. Recorre, assim, ao latim para desvendar a origem do nome (mors) e entender que ela ainda pode ser denominada como óbito (obitu) ou falecimento (falecer + mento). Infatigável, o homem fortaleceu a fé com uma boa dose de misticismos e vislumbrou o desencarne (deixar a carne)... Fracassou... A morte é um segredo, continua um mistério.
Bem que muitos sábios tentaram desvendá-la a partir desse ponto através da literatura, como o fenomenal escritor irlandês Oscar Wilde, que foi profundo quando escreveu: “[...] morte é o fim da vida, e toda a gente teme isso; só a morte foi temida pela vida, e as duas refletem-se em cada uma [...]”. Entretanto, em outra literatura viva, inspirada por quem guarda o segredo da morte — Deus — escreveu-se em Filipenses 2. 12: “[...] desenvolverei a vossa salvação com temor e tremor”.
No entanto, se ousarmos ir um pouco além e enveredarmos pelo universo das mitologias — principalmente a indígena —, no qual a morte ganha outras proporções, atiraremo-nos num mundo onde um misto de deuses, lendas e heróis impera, transformando o mito morte em rituais que abrem trilhas que convergem para vários caminhos, muitos acreditando ser possível a ressurreição.
Mas quando a missão é encarar a extinção, o indígena, principalmente o guarani, tem três reações distintas: a primeira é a de um medo extraordinário dos mortos; a segunda é de adaptação, revelando que a morte não os assusta, mas, sim, o espírito do morto — a anguêry —, que passa a vagar. O medo é tamanho que os leva à terceira reação: um desejo ardente de chegar à “Terra sem Males”.
Esse temor é generalizado, porque, segundo a cultura guarani, existem três tipos de alma: a nhe’enguê ou nhe’em — alma do bem —, que segue o caminho que leva direto ao além sem incomodar os vivos; a anguêry, que é a alma animal — que, durante um período, permanece na Terra para assustar os vivos —; e a avyu-kuê, que se transforma numa sombra inversa à da pessoa, mas que vaga pela mata sem assustar os vivos.
Mas, entre respostas e interpretações, um questionamento deixa os especialistas, os educadores e, principalmente, os pais em saia justa: como informar a morte de um ente amado a uma criança?
É preciso que pais e educadores entendam que criança não é um presente gerado para ser manipulado como se tivesse manual de instrução, através do qual erros e conflitos podem ser reparados para ajustar falhas. Criança é ser humano e como tal tem personalidade distinta, vontade própria, desejos e uma densa carga de curiosidades.
Esse questionamento deve ser resolvido de forma coerente, pois pequenas falhas cometidas, principalmente pelos adultos — acreditando que estão fazendo grandes feitos —, caracterizam desajustes em jovens e adolescentes, pelo fato de os adultos admitirem que o viver é uma trajetória de lógicas cientificamente comprovadas e que se fecha numa contabilidade exata... Viver é errar, aprender e amadurecer e, desse modo, crescer, encarar a vida e a própria morte como trajetória natural. Esse cuidado é tudo que o mestre Rubem Alves nos alerta: “[...] a morte pode representar algo totalmente diferente entre as diferentes pessoas e algo totalmente diferente em diferentes épocas da vida de uma mesma pessoa”.
“Por que meu avô (meu pai, minha mãe, meu irmão, etc.) foi levado naquela caixa de madeira e não voltou para o jantar?”
De tão complexo, o contexto provoca desconforto. Principalmente ante o crescimento das tragédias ambientais, da violência doméstica e urbana, que provocam mortes súbitas. Negar essa verdade aos pequeninos pode originar gravíssimos problemas no futuro, e esses fantasmas perseguem, acossam, provocando desequilíbrios, pois a criança, na fase da formação dos laços afetivos, se apega demasiadamente a alguém ou até mesmo a um animal de estimação — cachorros, especialmente — e não pensa no fim. Por isso, deve ser preparada — de acordo com a faixa etária — para enfrentar separações repentinas sem afetar o ponto mais vulnerável: o psicológico.
Há uma necessidade de a escola inserir, no seu currículo, conteúdos que preparem as crianças para entender que a morte é uma etapa obrigatória, mas a vida continua com novos sonhos, novos desafios, novas batalhas, afinal o ciclo “viver” é como um brinquedo que tem prazo de validade, pode quebrar pelo mau uso ou por um mero acidente. Não se deve ludibriá-las com histórias que gerarão revoltas quando desmitificadas.
Infelizmente, a condição humana chegou ao estado deprimente ante a sede de ter, impelindo muitos a encararem esse milagre denominado vida como uma temporada sem fim, e não como um período que nos prepara para o fim.
Mas a expectativa da finitude provoca inquietude e silencia os homens. E é nesse silêncio que temores ecoam, medos se manifestam e fraquezas são contidas pela resistência... Os que se preparam para ouvir essa voz inquietante — a da razão — e preparam os que vivem a flor da vida — as crianças — para enfrentarem esse momento de perdas e separações não passam por isso.
Temos que admitir que explicar a morte para a criança é uma tarefa tão difícil quanto explicar a essência do viver aos que apenas absorvem a vida... Mas é preciso esclarecer para elas — e esclarecer sem provocar transtornos ou traumas psicoemocionais —, afinal preparar é a forma mais segura para superar medos e administrar inseguranças.
Perante a grandeza da complexidade da morte, o humano recua... Mas o questionamento ressoa com tanta frequência que gera tormentas. Explicar esse fim para uma criança é um processo extremamente delicado, pois esclarecer o enigmático é uma missão quase impossível, mas todo pai ou professor deve estar preparado para isso, principalmente na fase em que as indagações — por volta dos 4 anos — são frequentes, pois a criança quer saber de onde vem, qual sua missão e que fim tomou um ente amado que fazia parte do seu dia a dia.
A verdade é que eu, você, nós, não escaparemos das garras da impiedosa. Mas essa certeza não é suficiente para sabermos se esse instante será daqui a uma década, duas, três, dez... Amanhã, hoje, agora... Por isso, é preciso que estejamos preparados para enfrentarmos a perda de alguém que amamos ou para ampararmos alguém que depende da nossa maturidade.
Quem já viveu essa experiência tem consciência de que a morte de um ente amado é uma perda incalculável, mas fazer de conta que ela é um bicho- -papão e fechar os olhos temendo encará-la é tão sinistro quanto dormir à sombra de um vulcão.
É por isso que é bom estarmos preparados e prepararmos os nossos pequenos para esse momento... Morrer é um processo muito comum. Mas uma verdade deve ser enfrentada com seriedade: a morte do outro pode nos abalar, deixar-nos tristes, mas, quando é na família, a dor é inexplicável. Ignorá- la por medo é mentir para nós mesmos com o intuito de enganarmos o outro.
A omissão dos adultos — na maioria das vezes para poupar sofrimentos — é um erro grave, pois as vítimas dessa omissão pagam um alto preço para repararem as perdas, recolocarem-se no caminho e reencontrarem a trilha da vida.
Sabemos que a morte é como a mudança do tempo, acontece bruscamente. Para ela, não importa que a vítima tenha 1, 2, 7... 100 anos. Se chegou a hora, ela simplesmente arremessa a sua foice, deixando para os que ficam momentos de pura angústia, de pleno desespero. O Eu chega ao extremo da dor, que transita entre o íntimo e o coração, que apenas sangra, perde o compasso, provocando total desequilíbrio.
A ferro e fogo, aprende-se que o limite humano vai além da consternação, da dor... A ausência produz um fruto amargo denominado saudade, e esta, quando se choca com sentimentos e dependência emocional, abre um vácuo numa dimensão incalculável e simplesmente acossa, tortura ao emitir ecos, trazer imagens, reviver momentos... Momentos com trajetórias invertidas pelos abismos que se agigantam sugando emoção e avivando a agonia.
Buscar força interior para reagir é o caminho. Mas um íntimo que sangra é como um terreno de areia movediça: nada se equilibra, nada é compreendido... Lembranças é tudo que resta. E, nessa tempestade, superar exige mais do que vontade, auxílio... É preciso ânimo, capacidade para recomeçar sem alguém que era o tudo.
A perda, para muitos, se torna uma lição tão penosa que a maioria é marcada para sempre por não estar preparada para encarar a vida com a ótica de que o nascimento é um milagre, mas a morte é uma consequência. Pois a vida é como a de uma plantinha... A semente é lançada numa terra fértil, germina, nasce e, a partir daí, fica exposta às setas do mundo: pode ser vítima de secas intermináveis, enchentes assoladoras; ceifada em pleno crescimento... Ou crescer, florescer, produzir frutos... E morrer, para que assim se cumpra o circuito da vida.
Por isso é fundamental que o adulto — principalmente os pais — inicie esse preparo a partir dos “porquês” da criança, pois, nessa fase, a mente dela é um terreno fecundo, pronto para receber as mais variadas espécies de sementes. Ainda assim, mesmo tendo a curiosidade aguçada pelas coisas à sua volta, as crianças não têm maturidade para perceber nem compreender que a morte — mesmo sendo uma fatalidade — não é uma viagem, principalmente quando se trata de alguém que compartilha do seu dia a dia — como avós, pais, irmãos. Essa consciência é fundamental, pois desintegrar a criança da realidade é privá-la de um direito, o que pode acarretar problemas futuros.
O que deve ser evitado é atingir sentimentos, emoções e o psicológico. Esse processo exige habilidades, como dar respostas que saciem a curiosidade sem sobressaltar a criança. A solução holística do enigma pode estar na abordagem.
Mesmo com os extraordinários avanços da ciência — que insurreciona a medicina, com transplante de coração, fígado, pulmão, medula óssea, tecido pancreático —, a eficácia da imunologia — o sedicioso descobrimento dos antígenos de histocompatibilidade —, a evolução da farmacologia e da cirurgia plástica — que remodela, reconstrói o humano para ressaltar encantos — e a manipulação genética — capaz de criar a vida num ambiente in vitro, e que ainda não clonou a raça humana graças à contenção da lei —, jamais se evoluiu para chegar ao estágio de impedir que a vida siga o seu ciclo natural para encontrar- se com a morte... Morrer é trajetória de mão única de quem nasce... E o responsável por esse fim é ninguém além do próprio homem.
Se o homem tivesse acatado os conselhos do Criador — desde o Jardim do Éden —, não passaria pelo processo de morrer nem viveria num mundo de guerras, fome, tragédias e epidemias incuráveis. Tampouco sofreria com a expectativa de viver um dia, um mês, um ano, cem anos, sem saber para onde irá após a transição; muito menos os adultos teriam que inventar histórias, mentiras, para explicar às suas crianças que a morte é um fantasma tão real que o amanhã é uma promessa que pode não ser cumprida, pois esse fio pode ser cortado no passo seguinte pela violência urbana, pela guerra e, pior, pelos próprios entes queridos, graças à selvageria doméstica que a cada dia destrói lares e abala famílias.
Mas o humano é imbatível na busca de troféus que satisfaçam o ego. E, para tanto, é capaz de ir além do Eu alheio, porém cede, renuncia, ante uma barreira que, para ultrapassá-la, depende de estrutura psicológica, preparo emocional... O humano deve compreender que ir e vir, chegar e partir é o ritmo correspondente à sucessão da vida, e, sem essa estrutura, muitos desabam, despedaçam-se, desesperam- se diante de um fato esperado por todos.
Muitos se desequilibram diante da morte, como se o mundo extinguisse algo vital... Esquecem-se de que perdas e ganhos promovem o equilíbrio, principalmente o crescimento de quem busca uma vida contrabalançada, cujos sismos não a abalam.
Esse aprendizado proporciona o amadurecimento, a base da estrutura humana, que não acontece para muitos devido à carência de fé, de amor pelo outro, e por isso eles simplesmente sofrem, padecem... E não vivem. Não vivem porque não aprendem com os tropeços. Não dominamos o tempo, não governamos a vida... Nada nos pertence a não ser a própria existência, e a dor, a morte do outro, é um alerta que devemos levar como lição. Precisamos educar-nos e aprender que viver exige estrutura, e faz parte dela o preparo para morrer ou para relacionar-se com a morte de alguém. Sem esses cuidados, muitos permitem que a pior das mortes aconteça — a morte do Eu —, permanecendo inertes apreciando o curso da vida. A morte física se torna a decorrência das ações de um ser que se atirou de peito nas entranhas de um mundo repleto de ciladas sem o kit básico de sobrevivência.
Por acreditar que é capaz de sanar todos os problemas, o humano julga-se no direito de ir além... Além do próprio Criador, por entender que a ciência responde perguntas, tem a fórmula que abre portas.
Somente quando se envereda pelo corredor do fim é que o homem percebe que a vida é o seu maior patrimônio e este é uma herança de quem gerou a vida, não um crédito que pode ser usado numa emergência, quando o existir entra no vermelho.
Na verdade, os adultos deveriam aprender com a capacidade que as crianças têm para contornar barreiras em vez de acreditarem que podem ultrapassar todos os obstáculos. Deveriam aprender a sorrir para a vida após uma lágrima derramada e encarar o horizonte sem receio de olhar para trás. Essa resiliência não é consequência apenas da inocência, que perdoa sem guardar rancores, da imaturidade, que recomeça sem contabilizar as quedas... Mas da sabedoria, que lhes permite não complicar a vida por motivos fúteis estes levam muita gente grande ao pó sem que experimentem a verdadeira essência da vida.
Essa lógica é tão coerente que uma das regras impostas para entrar no reino dos céus é: “Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus”, declarada pelo próprio Cristo em Mateus 18. 3. Afinal, a morte não desaponta as suas vítimas. A morte não é apenas terror, o fim de tudo... A morte é um sobressalto que nos desperta com tamanha genialidade que inspira o poeta, dá vida à melodia através das notas de um íntimo que sangra a dor de uma perda, de um coração que chora, mas que não desprende o olhar do horizonte...
A morte é sabedoria, pois instiga a Filosofia a retratá- la com tamanho fascínio que gerou frutos maravilhosos, como doutrinas filosóficas e religiosas e, mesmo deixando como herança muitos temores, um alto grau de ansiedade e elevadas doses de angústia, fortalece-nos com as perdas. Isso mesmo... As perdas nos fortalecem de tal maneira que impulsionam em nós a vontade de viver, despertando em cada ser a necessidade de valorizar a vida, para assim poder sonhar, fazer planos e alimentar com o combustível da esperança a chama da vontade de correr atrás da felicidade nesse breve trajeto entre nascer e morrer.
FONTE: Revista Construir Noticias, edição 63
COMO VOCE VÊ A EDUCAÇÃO NO BRASIL?
Como você vê a Educação no Brasil?
Nildo Lage
Negar que a Educação no Brasil avançou nas últimas décadas é autocracia... Contudo, evolução sem consenso é desperdiçar recursos, imolar vidas... E, quando se afasta do caminho que conduz à vitória, é o momento de acionar o despertador da razão para despertar governantes que vêm transformando a Educação numa utopia.Nessas vicissitudes de aprendizagem e desaprendizagem, governo maquia, professor dissimula e o aluno é forçado a se servir de um cardápio adverso à sua cadeia alimentar, pois a família confunde educação com formação, envolvimento e participação com compromisso — e, se a lei não punisse cortando benefícios sociais, a situação seria pior — e, na ânsia de livrar-se das suas responsabilidades, simplesmente assina o boletim no final dos bimestres com um amistoso “Está tudo bem!”.
Completamente exposto às intempéries de uma sociedade telhuda, o sistema de ensino desenha, redesenha, ajusta, reajusta... Recauchuta... Mas não impetra os ingredientes básicos da Educação: valores, ética, respeito... Mesmo consciente de que Educação é um todo e que, sem a junção desse todo, fica impossível abrir uma janela, pois o colapso de paradigmas científicos, as deficiências étnicas e a degradação familiar afastam da sala de aula princípios morais, religiosos e culturais, provocando a cegueira do ensinar bem, impedindo a escola de cumprir o seu papel de integradora em plena era tecno-científica-informacional, em que o conhecimento tornou-se exercício da cidadania.
E assim, década após década... Séculos a fio... A Educação se concentra, recarrega a arma, ajusta a mira e aciona o gatilho, confiante de que, desta vez, alcançará o alvo qualidade para saciar uma sociedade sedenta de Educação. No entanto, as perspectivas se frustram por não atingir a meta formação humana e — fracasso após fracasso... erros sobre erros — não evoluem para se converter na menina dos olhos do governo. Pois esses olhos permanecem vendados, persistindo em acreditar que Educação de qualidade é sinônimo de investimento, para que cifras reflitam nos gráficos uma realidade forjicada.
Deficiência de estruturas governamentais para favorecer as práticas educacionaisPropicia a proliferação dos problemas que acontecem entre diagnósticos inconvenientes e vazamentos de resultados. Seguindo por esse caminho, a desaceleração é fatal. Nessa descida contínua, a queda provocada pela deficiência de políticas educacionais é inevitável. A estatística incomoda e se reflete, principalmente, no vestibular: as nossas escolas oferecem uma formação de Terceiro Mundo e o governo aplica o vestibular com nível de Primeiro Mundo. Só é aprovado aquele que frequentou uma escola particular ou pagou cursos pré-vestibulares para ajustar as falhas deixadas pela escola pública.
E assim a desordem agrava a situação com os equívocos da aquisição pelos municípios de programas educacionais
Por não terem competências para discernirem que tudo o que se constrói estabelece fundamento, fazem da Educação brasileira uma história análoga à do Brasil: o achamento do que não havia sido perdido por alguém que se desnorteou nos próprios caminhos. A nossa Educação, clonada de outros países, busca a edificação numa base que não foi edificada. Essa sequência de erros vem desde os jesuítas, que acreditavam que podiam. Podiam e podiam... Não puderam. Não catequizaram os índios nem alfabetizaram as famílias dos colonos — afinal, para que uma colônia agrícola necessitava de Educação? A força dos braços era o bastante para manusearem a revolucionária caneta “enxada” —, e a expulsão da Companhia de Jesus agravou a situação.
Daí a praxe de receber fórmulas prontas desde a colonização, a ponto de se tornar “cultura latina”; e se ambicionarmos chegar a um patamar que proporcione um ponto de luz no fim do túnel, o Brasil deve se curar da febre provocada pelo vírus da importação de tendências. Pois, desde o liberalismo — quando a formação era o alvo, até o neoliberalismo assumir o comando para desmistificar mitos, evidenciando que o sociointeracionismo seria o caminho para edificar a construção do conhecimento; muitos chegaram a comemorar, acreditando que uma nova era surgia para ampliar os horizontes —, a Educação ficou na mesma.
E, apesar de ser um direito constitucional, a Educação Básica não é encarada com seriedade, e, por sermos carentes de homens que fortaleçam a cultura nacional para que valores sejam inseminados no contexto educacional, ficaremos por mais algumas décadas estagnados. E, como todo segmento que não é levado a sério, os pontos de destaque surgem isoladamente.
A verdade desse reflexo negativo parte do próprio Ministério da Educação (MEC), que nos revela a triste estatística de que 91% dos alunos que saem do Ensino Fundamental não dominam as habilidades básicas de leitura, não compreendem nem interpretam textos básicos.
Esses números ratificam outros estudos, como o encomendado pela UOL Educação, que teve como referência as notas da Prova Brasil de 2009 — exame da proficiência de alunos das escolas públicas para medir o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgadas em 21 de dezembro do ano passado, revelando que nove de dez alunos das escolas públicas que concluem o nono ano não dominam as quatro operações matemáticas, principalmente as que envolvem centavos ou porcentagens, como declara o economista Ernesto Faria, responsável pelo estudo:
89,4% dos alunos do último ano do Ensino Fundamental tiveram desempenho abaixo do básico e básico na disciplina. Isso quer dizer que tiraram notas menores que 300 na prova — em uma escala que chega a 425 em matemática e a 350 em Português.
E, por termos 80% dos nossos alunos em escolas públicas, a situação é uma vergonha para uma nação que é a sétima economia mundial.
O que fizeram nesse período? Brincaram, pintaram e bordaram para passar o tempo?
Respostas inelegíveis ecoam: O professor desconversa alegando que fez o que estava ao seu alcance, o gestor mais ainda... O governo? Foi além das suas obrigações... Pois seu sistema tem estrutura para oferecer uma Educação de Primeiro Mundo — com escolas modernamente equipadas e ministradas por professoras com formação —, o vácuo deveria ser preenchido pela presença da família... Mas, no fritar dos ovos, sonhos foram comprimidos e caminhadas foram interrompidas pelos objetivos não alcançados, e a crise se alarga, tornando cada vez mais difícil submeter o problema a um raio X para se chegar à raiz da dificuldade, pois a guerra de empurra não tem fim: professores acusam o sistema de negligência: espaço físico inadequado, baixos salários, péssimas condições de trabalho, alta carga horária, inexistência de suporte... Aporte... Sempre na defensiva, o sistema dispara: a deficiência de compromisso do educador é um dos principais fatores da desaceleração da qualidade... E, assim, a Educação avança a passos de tartaruga, proporcionando o seu naufrágio por estar sob o comando de gestores sem supervisão, que desequilibram educadores e deixam educandos perdidos, pois conteúdos e realidade não seguem pelo mesmo caminho.
Qual o alvo almejado pelo Estado através da Educação?A pergunta ecoa e silencia antes de chegar aos gabinetes. Nenhum envolvido contesta. A Educação no Brasil avançou, mas perdeu a direção ao estacionar no físico: prédios modernos abarrotados de livros, mobílias, tecnologias, material didático, bibliotecas, salas de vídeo, TV, pendrives, computadores... E o professor? O que a Educação está fazendo com esse humano sem autonomia, sem respeito, que vem se tornando o saco de pancada ao permitir ser agredido, sugado, massacrado entre quatro paredes?
Bem que o MEC poderia emergir desse mar de desordens e traçar uma rota definida para determinar onde quer ancorar o barco da Educação. Pois, a partir do instante em que o Brasil decidir aonde quer chegar e canalizar investimentos para esse fim, alcançará índices surpreendentes.
O que tem que parar é de imitar. O que funcionou na Holanda, em Cingapura, pode não funcionar aqui. Os sistemas são completamente diferenciados... O Governo gira o mundo seguindo resquícios de métodos e tendências que funcionem e não para para criar o próprio, o que se enquadra à nossa realidade, nem persiste nas metas, estruturando tecnicamente o seu quadro de educadores. Educação não é uma competição em que troféus elevam a posição no ranking. Estar no topo em qualidade é fundamental, mas clonar um modelo e implantar em solo e clima adversos é perder tempo e dinheiro e sacrificar os 80% de dependentes da Educação pública, que são submetidos a esses testes.
O Brasil está no caminho de se tornar uma potência econômica, e essa alavancada na economia pode ser o momento para que os fazedores de Educação reinventem a história. A hora é agora. A equipe de Governo — mesmo envolta em crises e escândalos — está amadurecida; e, com economia em alta, tudo fica mais fácil. A diferença está na opção decoreba — como na Coreia do Sul — ou liberdade — como na Finlândia — ou assumir o comando da carruagem e determinar que saia do lugar-comum para ampliar os horizontes?
Esse atraso gera outro problema que dificulta o processo ensino-aprendizagem. A escola estagnou no tempo. Pintou a fachada para dissimular, enquanto seus alunos decolam ao encontro do futuro e pousam de iPhone, iPad, tablet, smartphone... Os métodos... Os métodos? Estes retardam, pois chegam de carroça, e o aluno não suporta o excesso de informações fúteis em meio aos conteúdos aplicados, quando poderiam ser sutis com atividades sem tantas repetições e explorar a criatividade — que nessa fase está aflorada —, tornando as buscas objetos de pesquisas, ampliando, assim, os horizontes do conhecimento.
Mas o sistema desconhece os impactos da formação do professor na aprendizagem do aluno...
Temos ciência de que o Sistema de Ensino é falho, que o Governo é omisso, que as famílias fazem vista grossa para não assumir as suas responsabilidades... Mas, quando o alvo é o humano, a maior barreira é o próprio humano, que se torna vítima de uma enfermidade que é a marca do brasileiro: o comodismo. Professor come livros para passar no vestibular ou deixa de comer para pagar a faculdade... Atravessa dias, noites em branco para ser classificado no concurso... Essa zona de conforto — a estabilidade — o faz acreditar que a missão de se tornar educador foi cumprida e passa a ser um cumpridor de calendário... A Educação que se dane ou rebole para atingir metas sem contar com a sua participação.
Como a Educação depende de um conjunto de esforços para atingir resultados, muitos confundem formação com qualificação. Sem direcionamento, a locomotiva educacional se descarrila, e é nessa linha que despontam as dificuldades.
Formação depende, em parte, do Governo, do sistema... Mas o querer do educador em fazer a diferença... Pode ser a diferença. Todavia, professor que não tem ambições de crescer profissionalmente jamais desejará o sucesso do seu aluno.
Sem essa ambição que o impulsiona, o freio de mão é puxado e tudo fica estagnado. E, mesmo na era em que o esporte está em alta, não há avanços, porque a cultura está em baixa, e, com cultura em baixa, professor é uma ação em queda no mercado governamental. E, diante dessa desvalorização, a tendência é o nível cair, pois o investimento no professor está sendo apenas salarial, e, sem o investimento complementar, acontece o que declara Gabriel Chalita no livro Educação Está no Afeto:
A alma de qualquer instituição de ensino é o professor. Por mais que se invista na equipagem das escolas, em laboratórios, bibliotecas, anfiteatros, quadras esportivas, piscinas, campos de futebol — sem negar a importância de todo esse instrumental —, tudo isso não se configura mais do que aspectos materiais se comparados ao papel e à importância do professor.
Professor que, para cumprir a missão, transforma a profissão numa aventura... Uma verdadeira maratona contra o tempo, pois o estresse se inicia antes de pisar no batente da sala de aula: engarrafamentos, ônibus, trens, metrôs superlotados — isso quando não tem que pegar duas, três embarcações. Ao toque do sinal, corre-corre, gritos, indisciplina e violência, que transformam a sala de aula num espaço hostil.
No entanto, professor é super-herói, tem que reter poderes para superar os vilões e proteger as vítimas do descaso político, do abandono social, do desequilíbrio familiar... Afinal, professor é tio, mas, na maioria das vezes, tem que assumir o papel de pai, psicólogo... e... ser professor.
O retorno para casa é uma nova maratona... Em casa, a guerra continua: trabalhos diários para corrigir, filhos. A família... Na vida do professor, o dia é longo... A corrida não pode ser interrompida, pois um bico para complementar a renda familiar o aguarda na escola da outra banda da cidade, e é para lá que ele vai... Ao final do dia, o esgotamento é total: físico, emocional, psicológico... Mas a sala de aula é como o ciclo da vida: não pode ser obstruído... Por isso, é preciso recarregar a bateria para reiniciar tudo de novo no dia seguinte.
O desafio de educar a geração pós-boom tecnológico...
O Governo não se enrubesce ao se adentrar pelos lares sem pedir licença, usando a tecnologia popular — a televisão —, que dita as tendências, transfigura costumes, altera tradições e comportamentos; interrompe a programação em horário nobre para chamar de Tecnologia Educacional o que não passa de computadores instalados numa salinha para fazer marketing do seu grande feito, o Programa Nacional de Informática na Educação (ProInfo), convicto de que está proporcionando suporte e aporte a educadores e educandos, para que não sejam abatidos nem sobressaltados pela revolução tecnológica que invadiu o planeta Educação com sediciosas armas — iPhone, iPad, tablet, palmtop, notebook — obrigando a todos — gestores, especialistas e professores — a colocarem uma viseira 3D para vislumbrarem essas ferramentas como o complemento que necessitavam para redirecionarem os olhares e atenderem aos anseios da Educação.
O Sistema de Ensino brasileiro necessita ser remodelado, ser alfabetizado para ler sem tartamudear o abecedário da comunicação on-line, readaptar-se à realidade do mundo para, assim, educar cidadãos com valores, em pleno boom tecnológico — que compactou o planeta e rompeu a distância entre as pessoas. A Geração Y desfez regras familiares, ultrapassou princípios religiosos, rompeu tabus religiosos e sociais para construir a própria identidade.
Esse livre-arbítrio elevou barreiras que dificultam os professores a transitarem nessas plataformas, e a inseminação do conhecimento não acontece em face da chuva de informações que impedem o crescimento do aluno no espaço escolar pelo fato de Educação, professor, aluno e Governo não falarem o mesmo dialeto.
E, sem dialeto definido, a expressão grafolinguística dominou a sala de aula, contaminando adolescentes, jovens e crianças. Tanta tecnologia desnorteou a escola, que não consegue girar nos eixos norteadores, e mesmo o humano — sendo uma espécie adaptável, gestores, professores — não consegue acompanhar o ritmo devido à falta de intimidade com esses artifícios e se embaraça cada vez mais, a ponto de muitos as descartarem para tomar mão do clássico.
“O brasileiro adere facilmente à tecnologia; é um povo muito aberto à comunicação” — explica Priscyla Alves, gerente de produtos, comunicação e marketing para o Brasil e a América do Sul da Microsoft —, exceto por alguns professores que se confundem nos conflitos do relacionamento entre o humano e a tecnologia e submergem na transição do real para o virtual, fazendo com que o convívio com os alunos seja conflituoso. Pois muitos — analfabetos digitais — não se encontram nesse universo de plataformas onde o novo desponta com um clique, e, por não se identificarem, vivem na era do ecrã se contorcendo como um peixe fora da água e sem direção no centro do próprio ecrã.
O fato é que ecrã e professor não falam a mesma língua, e, assim, o primeiro não obedece ao comando do segundo e, sem sincronia, não há entendimento, mesmo os que vivem nos grandes centros urbanos ainda veem o computador como bicho de outro mundo e não se interessam em tocar nesse monstrengo porque... “Eu tenho medo de clicar em hibernar no computador... Vai que ele só volte a ligar depois de seis meses!”. Ante tanta incompatibilidade, o próprio Windows se envergonha.
O desinteresse é abissal. Muitos acreditam que as tecnologias na Educação chegaram para complicar a vida do professor. Esses reflexos interferem diretamente no ensino-aprendizagem, pois os métodos aplicados não atraem nem estimulam o aluno a se arraigar no seu universo para pousar num espaço sem atrativos.
Todavia, a Educação não sofre apenas com o professor que ainda encara o computador como uma coisa indomável. As tecnologias, na maioria das vezes, não são aproveitadas como ferramentas pedagógicas e empregadas a favor de alunos e professores. Porém, as suas influências vêm se tornando uma arma letal que assassina o português, onde a escrita formal se choca contra o “internetês” a ponto de embaraçar até o professor: “Anotem o meu e-mail pessoal, porque eu não sei escrever aquele tanto de... Vocês entenderam... Foi o meu filho quem criou... então anotem: joão underline silva letra, aquele ‘a’ de rodelinha, hotmail ponto com”.
E, como o sistema não evolui para proporcionar suporte ao professor, a revolução do “internetês” na escola está transfigurando a língua materna. A metamorfose é tamanha que VOCÊ já é grande demais para um universo imaginário, por isso se tornou simplesmente VC, mas se a “tia” achar que naum tá bom, nóis cria um blog e deixa a parada beim!
Esse bilinguismo está dificultando o entendimento professor-aluno. Só que o sistema, a escola... O próprio professor deve entender que essa influência vai transitar pelos corredores e pela sala de aula por muito tempo. Por isso, é aconselhável que se adote essa linguagem — sem preconceitos, exageros e descontrole — para o bom desempenho das aulas. Pois professor plugado entra em sintonia com a turma e não tem que “pagar mico” quando os seus alunos postarem um trabalho no link da escola ou receber um e-mail com um arquivo anexo:
Bom dia!
Aki! Axo que a paradinha ficou blz.
Os 10colados usaram a kbça, buscaram as 9da10 e ficou 10.
Vlw,
Abc da turma e muitos bjus.
Essas ferramentas dominarão a Educação, e chegar aos pontos mais remotos do País — como nos estados do Norte e do Nordeste — será uma questão de tempo. Não demorará a consumação de aulas com alunos plugados na rede mundial de computadores. Portanto, dominar esses recursos será uma questão de sobrevivência na profissão. Professor que não se atirar nesse mundo tecnológico ficará marginalizado.
Mas, se a resistência do professor em buscar o novo imperar, as mudanças ficarão cada vez mais distantes e as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) na Educação continuarão com um projeto estagnado pelo desinteresse, pois muitos veem software como ferramenta além dos muros da escola e esse negócio de TIC... TIC? SO Linux Educacional? Deixa essas coisas onde estão... Não queremos nada que possa nos provocar tique-tique nervoso!
Um caminho a ser trilhado...
É preciso provocar um terremoto. Abalar as estruturas do sistema e chamar a Educação para a responsabilidade de ensinar em tempos de guerras tecnológicas e declínio de valores familiares exige uma formação que vá além do repassar informações. É necessário inserir denodos, prender a atenção, despertar o prazer do aluno em estar na sala de aula, e que essa sala auxilie, preencha as necessidades de cidadão por meio de conteúdos ricos em nutrientes que fortaleçam o humano e mate a sua fome de ser.
Afinal, Educação se comprime em porções disseminadas em dois pontos de convergência obrigatórios: o do aprender e do ensinar. Se o educador não assumir o desafio de ensinar aprendendo, para, assim, tornar-se um formador de humanos, tampouco com gritos, castigos, toneladas de conteúdos e avaliações superficiais, atingirá as metas propostas pela Educação universal.
Possíveis caminhos a partir das conquistas atuais...Em meio à crise, as palavras de ordem são: suporte e aporte. Suporte que não deve se resumir em capacitação, mas promover o fortalecimento das estruturas profissionais do professor para, assim, edificar as bases do trabalho docente, pois a Educação do novo milênio determina que se vá além da sala de aula, dos muros da escola, e essas mudanças devem-se iniciar pelo humano, estruturando e estimulando o professor para dominar competências, intervir, explorar potencialidades e habilidades e se relacionar com alunos portadores de necessidades educativas especiais.
Esse cardápio deve ter como prato de entrada a autonomia do professor, para que este possa atuar como medida socioeducativa para amenizar outro grande problema enfrentado pela escola — o bullying — e possa derrubar um paradigma histórico: o fim do ensino elitista, pois a escola pública — assim como as faculdades federais — ganhará respeito, confiança pela qualidade do ensino oferecido. Qualidade que se tornará integração e inclusão, pois se converterá num espaço onde o sociocultural será respeitado por meio do domínio do conhecimento, que será direcionado por um transmitir consciente, no seio de uma escola inclusiva, onde as diferenças são superadas pelo princípio de igualdade.
Em que ponto principiar a obra de reestruturação?
O fato é que a maioria dos envolvidos no processo educacional não assume, mas a sentença já foi decretada: o professor que não estiver preparado para enfrentar as adversidades certamente fracassará. Pois, nesse duelo, formação acadêmica já não é suficiente, é preciso personalidade imutável para não se transformar em mais um sem idealismo no quadro de docentes, pois, na Educação do novo milênio, a construção do conhecimento é edificada sobre uma plataforma universal, onde o aluno deixou de ser um indivíduo sem domínio de conteúdo. Já envereda pelos portões da escola com teorias de engenharia universal, torna-se um construtor do próprio conhecimento e, exatamente por ser um sujeito historicamente situado, não permite ser guiado, muito menos afastado do seu universo.
O novo modelo exigirá do professor competências determinadas para administrar o processo de ensinar sem extinguir o multiculturalismo, afetar princípios religiosos, arranhar valores sociais, familiares... Ter em mãos acessórios obrigatórios como decisão, flexibilidade, dinamismo, reflexão e transdisciplinaridade.
Nesse processo, nem sempre uma extensa infraestrutura física e uma vasta lista de recursos tecnológicos suavizarão o problema. A escola necessita de credibilidade, e, para tal, subsídios como aporte ao professor são a segunda pedra que deve ser assentada para fortalecer, principalmente, as estruturas técnico-pedagógica, social e psicológica.
Só que esse subsídio não pode ser temporário ou em períodos alternados... Deve ser um processo contínuo de investimentos no humano para que técnicas modernas e dinâmicas sejam introduzidas como instrumentos aliados às tecnologias, para que transformem alunos sonhadores em empreendedores do próprio tempo, pois o ensino transformador impulsiona a busca, e é essa busca que amplia os horizontes do ensino-aprendizagem.
Para evitar uma tragédia, é preciso adotar políticas internas para adequar a realidade da escola ao perfil de seus alunos, impedindo que barreiras artificiais impeçam o crescimento humano. Afinal, as tecnologias, principalmente a Internet, podem se tornar grandes aliadas, como acredita Ataliba de Castilho, professor titular de Língua Portuguesa na USP, um dos especialistas que ajudaram a criar a Estação da Luz da Nossa Língua:
A Internet pode ajudar a reduzir os excessos da ortografia, e bem sabemos que são muitos. Como toda palavra é contextualizada pelo falante, podemos dispensar muitos acentos. O interneteiro mostra um caminho.
Mas como o brasileiro é herói e “não desiste nunca”, mantém acesa a chama da esperança. Esperança que vislumbra esse caminho — a escola — desobstruído a tempo de despertar a consciência do Governo, de educadores e pais... Que Educação é ação. Atitudes que estimulam... Educação vai além do ler, do escrever, do fazer cálculos matemáticos... Educação é o caminho — e mesmo não sendo a verdade e a vida —, é o fundamento da vida humana... Sem esse alicerce, muitos desmoronam, perdem-se pelos próprios caminhos sem se realizar pessoal ou profissionalmente, pois é por meio dela — da Educação — que o homem sonha e conquista a liberdade ao adquirir habilidades e competências para fazer escolhas, traçar conscientemente a própria trajetória e, o melhor, impor direitos e exigir que deveres sejam cumpridos.
Afinal, homem é fruto do que planta... Doce ou amargo, dependerá da escolha do terreno em que cultivará, e a Educação é a substância que irriga, fortalece, dulcifica e prepara esse fruto para o amadurecimento no ponto almejado pelo mercado, por ser cultivado na árvore mais sublime... A árvore da vida que indicou a sala de aula como ponto de conserto... Se não houver sintonia entre homem e Educação, os seus frutos perderão o teor, e a espécie fenecerá.
Porque o Governo espera prêmios, e a Educação não paga recompensa, reflete resultados... Pois somente quando esse fruto é servido — ao se enveredar no mercado de trabalho — é que percebemos a seriedade de uma Educação de qualidade... Qualidade que se converte numa âncora que ostenta sonhos e leva milhares a encontrarem a sua pedra filosofal.
Comumente, a ausência de compromisso da comunidade escolar para compartilhar responsabilidades transformou-se numa barreira que se eleva dia após dia, e isso vem estimulando a escola a fazer cada vez mais... NADA, e o espaço preenchido por esse NADA aumenta a distância entre sonhos e realidade... Porque o MUITO que poderia ser feito foi substituído por NADA, e a escola está se convertendo num parque de diversões onde as brincadeiras — “Eu faço de conta que ensino, e você faz de conta que aprende” — estão cada vez mais divertidas.
Contudo, nesse universo, as dificuldades impedem o cumprimento de metas, porque a regra que impera é a universal: “Cada um no seu quadrado”. E, como não existe clemência, as argileiras naturais isolam professor e aluno, impedindo o cumprimento da meta maior: o ensinar bem... Pois ensinar bem determina estudar muito... Estudar para ampliar horizontes, facilitar o entendimento... Entendimento que promove a compreensão, instigando a busca do novo que chega antes do amanhã, quando, muitas vezes, é preciso reconstruir o passado para edificar o presente.
Mas o presente para o sistema é uma promessa, e promessa de futuro incerto. Apenas temporais de projetos, programas e planos, e essas chuvas não cessarão nos próximos anos, como prevê o centro “Meteorológico Especial da Crise” (MEC), que já acionou o alerta vermelho: torrenciais tempestades desabarão e inundarão o planeta Escola de tal maneira que alunos e professores correm um alto risco de se afogarem entre informações e desinformações, tendências e teorias, casos e descasos, até serem submergidos pela onda de descompromisso, sem conseguirem se orientar pelos caminhos bloqueados pelos lamaçais Plano de Desenvolvimento da Escola (PDE-Escola), que provocarão a escassez de alimentos que nem mesmo a Alimentação Escolar saciará, porque a fonte Biblioteca na Escola, que deveria fornecer na cesta básica a base de conhecimento, valores e princípios, é ignorada, está à beira da extinção, e o Brasil Alfabetizado esbarra em dificuldades para escrever a própria história, pois o Dinheiro Direto na Escola não é autossuficiente para promover a Formação pela Escola, pelo simples fato de o Plano de Ação Articulada articular somente os interesses do sistema, do Governo e até mesmo de alguns gestores, fazendo do Proinfância um caminho sem horizontes. Sem horizontes porque nem mesmo as máquinas do Transporte Escolar conseguem transitar para desobstruir outro caminho ainda mais importante, o Caminho da Escola, que abre uma janela para o mundo.
Mas, para manter essa janela aberta, é necessário alfabetizar o sistema para que possa se locomover com as próprias pernas e gerar a energia que ilumine o planeta Educação, extinguindo a fadiga de cinco séculos de tentativas e fracassos. Mas essa energia deve ser canalizada para um instrumento que anseia ser aclarado para iluminar vidas: o professor. Professor forte, satisfeito, bem remunerado e respeitado como profissional responsável pela formação de humanos.
Essa deve ser a primeira lição que o sistema deve aprender. Aprender que Educação é ação-reflexão-ação... Não embromação de construir uma escola, tirar uma foto, colocá-la numa moldura dourada e expô-la como troféu. Mas consciência de que construir uma Educação forte é imprescindível, além de ousadia, coragem e determinação para destruir paradigmas que impedem a abertura de novos horizontes. Horizontes que podem fazer do Brasil uma nação mais forte.
FONTE: Revista Construir Noticias, ed.
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Os problemas são tantos que a saúde pública chegou ao seu limite. E é imperativo disparar o alarme do humano para que ele desperte a consciência de que saúde, por menor que seja o problema, deve ser um ato de emergência e fraternidade, é a essência que purifica corações, abre os olhos para a vida, auxiliando-nos a notar o outro como semelhante e a nos sensibilizar com a sua dor, o seu problema, a sua vida. Pois o florescer do espírito fraternal desperta o afeto pelo outro, impulsionando o homem a ambicionar a edificação de um mundo melhor e impedir o extermínio da esperança.
Dessa forma, o SUS está se tornando uma Saída Única para Salvar os SEM: sem teto, sem saúde, sem educação, sem justiça social, sem autonomia e que vegetam com as migalhas dos programas sociais unificados pelo Cadastro Único. Uma revolução para os governantes, que fazem na vida do brasileiro um grande diferencial: de um lado, presidente e vice-presidente, Poder Judiciário e seus altos funcionários, classificados na hierarquia social como cidadãos privilegiados. Do outro, o cidadão comum, rotulado simplesmente como sem direitos.
Para dissimularem, fazem “engessos”, apresentando números e belas fachadas para encobrirem as feridas. Mas sabemos que há tempos a saúde do Brasil não vai bem das pernas. Estremece, tropica, retroage... É submetida a cirurgias de emergência na tentativa de melhorar a qualidade, equilibrar os passos... Não tem jeito. Governo após governo, aumentam os descasos e reduzem os investimentos. Investimentos que interrompem vidas, como o caso dos gêmeos de Belém, que chocou o País.
Porém, adotar uma Política de Humanização, na qual a transversalidade é o grande desafio, estabelece versatilidade para superar a deficiência de solidariedade e implantar redes cooperativas. Essas ações vão além de atos solidários. É necessário comprometimento. Comprometimento que transforme o individualismo em atuações coletivas, o olhar unificado num foco que atinja um todo... Afinal, humanização é tematizar o sócio-histórico e integrá-lo aos princípios da integridade humana, alargando assim os horizontes do cultivo da saúde para que as limitações, principalmente na área profissional, não se transformem em empecilhos que impossibilitem o humano de dar um passo adiante e romper a distância entre a desordem e a qualidade absoluta, para que possa converter o ambiente de trabalho num local sedutor, e que isso promova o despertar da alegria, da felicidade, tornando o trabalho um ato prazeroso.
Mesmo a contragosto, temos que admitir os avanços do Sistema Único de Saúde nas suas duas décadas de existência. Progrediu surpreendentemente: saiu da micro para a megaestrutura. Para tanto, o governo necessitava de recursos, e, como no Brasil aumento de arrecadação significa inserção de impostos, o presidente Itamar Franco acatou a sábia ideia do então ministro Adib Jatene, que indicou a porta para se esquivar do Inciso IV, artigo 167 da Constituição Federal, que veda