quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Individualismo...

Individualismo...
Nildo Lage




O planeta entrou num célere processo de compressão e atravessa um período extraordinário da sua história graças ao indomável poder de ramificação dos meios de comunicação, principalmente a Internet, que conecta pessoas, determina o ritmo e cronometra o tempo, fazendo com que o mundo se veja pelo avesso em tempo real, exigindo do homem cautela que precipite os passos para arquitetar a própria plataforma, construir o universo pessoal e o blindar para bloquear acessos indesejáveis ou uma incursão de hackers, pois, num mundo onde não há privacidade, há o desequilíbrio de cabeças que navegam entre o existencialismo e o capitalismo, avivando cada vez mais a religião do isolamento.

Essa ampliação de mundos sem raias despertou no homem o maior de todos os sentimentos: o de liberdade. Gerou uma ultratransformação social. Com espaço de sobra e tantos conflitos, cada um se posicionou no seu quadrado, e, mesmo com as proximidades exigidas pelo cotidiano, o “Sou mais importante do que você” é lei na constituição da sociedade contemporânea.

No disputado jogo em busca do protagonismo, muitos transcendem, abdicam de coisas e pessoas para cumprirem a desafiante missão de “ser evidência” e, para tanto, recorrem ao alter ego. Esse distúrbio de personalidade impele muitos a se converterem em inabitados Batmans ao assumirem dupla personalidade e, nessa dissuasão de estilos, adquirem coragem e poderes para enfrentarem o maquiavélico Maskara. Afinal, quando o alter ego entra em ação, seus poderes criam legiões de heróis, pois, na mesma cadência, Homens-aranha tecem teias em torno de si para se protegerem, Super-homens e Tochas Humanas despontam em meio a fracassos e decepções para defenderem as vítimas dos caprichos do Eu e formam a invencível “Liga do eu sou, eu posso, eu quero...”, dando início à guerra de conflitos entre identidade e alteridade, pois, em meio aos ataques, o alter ego confunde, enleia-se num universo onde “eu sou o protagonista e vilão” da minha própria história, pois sou capaz de contracenar comigo mesmo para que o mocinho não cresça na trama e inverta o curso de minhas ambições pessoais.

Esse egocentrismo se torna tão consistente que “super-heróis” se autoprojetam com tamanha audácia que acreditam reter poderes para edificarem planetas pessoais, onde o existir é condicionado à vontade, que controla a rotação, determina o clima, os habitantes, e, sem que ninguém os detenha, arrebatam-se nessa aventura, acreditando que a camuflagem proporciona meios para lutar contra tudo e contra todos; voam alto, observam o mundo de cima, com ares de Superman, que nem mesmo a criptonita da razão absorve seus poderes, pois o ego não admite que, nessa trajetória, o mínimo que pode acontecer é uma dissimulada “Liga da Justiça”, onde nem as chamas ardentes do Tocha Humana resistem ao seu poder.

Dessa forma, cada vez mais o homem se foca no próprio umbigo e entoa uma canção que se tornou o hino de multidões: “Eu me amo, eu me amo... não posso mais viver sem mim!”. Esse sentimento ganha consistência à medida que o meio de comunicação mais popular do planeta — a televisão — insere na sua grade de programação o cardápio que atende à cadeia alimentar de todas as tribos, e, por ter como alvo o ego, a identidade se fortalece e a desagregação social é inevitável.

Assim, a identidade se compacta para provar ao sedutor alteridade, que se dobra em dois e confunde o ego, salientando que retém habilidades para acariciá-lo, dominá-lo, pois a alteridade, que equilibra pela sabedoria e pela justiça, passa a obedecer a impulsos e reações, a jogar charme e a não demonstrar as verdadeiras intenções, dando início ao intrigante triângulo amoroso identidade-alter ego-alteridade.

Nessa dança, a identidade é graciosa. Exibe-se em ritmos, letras, artes, poesias... Canções que retratam sentimentos, valores, exaltam sensibilidade, vulnerabilidade, salientando ao pretendente alteridade, que, mesmo com o seu alto poder de sedução, não se renderá em nome da plenitude da sua dignidade, pois, nesse jogo de quem domina quem, o Quociente de Inteligência (QI) perde a força e se rende à sensibilidade do Quociente Emocional (QE), salientando que escolhas definirão o futuro, principalmente quando o galã Alter Ego, o Duas Caras, entra no páreo.

As metas do individualista

Para atingir suas metas, o individualista torna-se um obcecado, a ponto de pagar altos preços. E são exatamente esses elevados investimentos que o desvirtuam, impelindo-o a afastar-se da rota e certificar-se que confiar no próximo é se expor ao holocausto, cientificando-se de que sozinho pode ser forte o suficiente para formar o invencível “Exército de um homem só”.

Nesse poderoso batalhão do EU, comandado por MIM, sobressai um ser com a audácia de desafiar o outro, romper as fronteiras do mundo para acatar os caprichos do comandante ID, que, COMIGO, está sempre preparado para qualquer eventualidade, inclusive estabelecer o seu implacável preceito: “Sou mais EU!”

Contudo, quando o individualismo envereda por caminhos paralelos chega a um terreno em que o indivíduo perde a ciência, o comando, e prossegue impelido pelo imprescindível desejo de ir além para obedecer aos impulsos do ego, e este o desafia a atingir o ponto mais alto, chegar à plenitude, para satisfazer o ser maior SI MESMO, enveredando pelos atalhos da individualização, que, segundo o fundador da psicologia analítica, o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, é

[...] o processo pelo qual o ser humano chega ao autoconhecimento e é levado a estabelecer o contato com o seu inconsciente, não só com o inconsciente pessoal (integrando as sombras), mas também como o seu inconsciente coletivo.

E como domina o consciente por uma força que deixa o EU livre — mas temeroso, dependente —, batalhas são travadas, íntimo e mente se transformam em campos de guerras incessantes.

Ao final de cada combate, as vitórias não superam as perdas e os individualistas encaram esse sentimento com pânico, desespero, e muitos — já dominados por esse sentimento — não se arriscam ao chegar ao self — centro da personalidade — para, assim, voltarem a existir no seio de uma sociedade como indivíduo socialmente integrado.

Meu mundo e nada mais...

No fantástico universo do individualista, só cabe o EU, “meus desejos”, e, quando o egocentrismo entra em ação, o clima sofre bruscas transformações e passa a ser governado pelo rigoroso sistema EU SOU, auxiliado pela Carta Magna, que rege EU POSSO, amparada por leis rigorosas que determinam como regra EU FAÇO, pois a religião “individualismo” tem como doutrina a satisfação do EU. O ego passa a ser o centro operacional que origina a força para coexistir na competitiva sociedade contemporânea, onde o direito de ser do outro sobrepõe-se à sua vontade de ter.

O fato é que o individualismo é mais do que “sou mais e não preciso de ninguém”. O individualismo confunde pessoas, enleia personalidades a ponto de renúncia e personalismo estarem em constante conflito, perpetrando no outro o caminho mais próximo para chegar ao semelhante, que, simplesmente, pode até ser irmão, mas com a sutil diferença de que usá-lo como atalho para alcançar os próprios objetivos é o propósito.

Para o individualista, despótico, é simplesmente uma ação involuntária para ressaltar os desejos insaciáveis do ego, que exige júbilo, obedecendo aos manifestos do querer, que despontam cada vez que a necessidade de sentir-se superior surge. Estar no centro das atenções é a meta, mesmo que para isso seja necessário dominar, impor condições, atropelar valores sociais, étnicos, religiosos... Enfim, o bem maior do individualista é o próprio EU, e este, a todo custo, tem que sobressair entre os demais e, para tal, não mede esforços, não poupa sacrifícios... O extraordinário é simplesmente ser mais, mesmo por meros instantes, mas tem que ser mais. Mais inteligente, mais importante... Mais... E é essa ambição de ser mais que robotiza, intensificando o grau de insensibilidade ao ponto de essa vontade provocar satisfação e prazer, pois essas reações são a mais genuína essência do individualismo que leva as suas vítimas à “orgasmomania”, deixam-nas extasiadas, impedindo-as de sentir o êxtase maior, que é dividir, compartilhar com o outro uma sensação tão louca que nem mesmo a “orgasmolatria”, com seus padrões estereotipados, seria o suficiente para satisfazê-las.

O desejo de ser é insaciável e, por não refletir em obstáculos e desafios nem contabilizar perdas, os individualistas autoconfinam-se em planetas idealizados pela necessidade de existir, permanecendo como não identificados na órbita do universo SOCIEDADE e partem à procura de algo que os identifique, que os conduza pelas sinuosas trilhas do SER e os levem à essência da própria existência: a exaltação pessoal.

O clímax acelera o processo do individualismo e abre tantos caminhos que a personalidade se perde, a identidade se esvaece, transpõe a razão e atinge a sofisticada individualização. Nesse estágio, público e privado se desvirtuam, provocando subversões de caráter, sentimentos que afetam, principalmente, as relações afetivas, pois os frutos da cultura contemporânea já são colhidos em solos adversos, como consequência do “aquecimento” no planeta familiar, fazendo com que experiências amorosas e relações afetivas saiam do campo privado, enveredem para o público e prossigam para o das banalidades.

Nessa transição, afeto e intimidade perdem o teor, porque o frasco que continha essas essências — a família — despedaçou-se pelo descompromisso emocional, sentimental e humano, fazendo dessa entidade um aglomerado de indivíduos onde o individual não existe e o individualismo impera.

Transitar nessa zona de conflitos e desentendimentos é rotina... Discórdias são momentos que aproximam seus membros para “lavarem roupas sujas”; e violência, a veia de escape para desfecharem rancores, mágoas e carências afetivas.

Mas, como todo produto do meio, o homem se resumiu num corpo corrompido no próprio seio — a família —, que o submete ao torturante processo de individualização. Metodologia em que pais, filhos, irmãos... são demudados em peças genuínas que não se encaixam. Para contrafazerem, catam respostas na base da psicologia — a filosofia —, que responde em meias palavras que, quando o foco é o humano, teorias se chocam, conflitam com a metafísica, cuja teoria afirma que “Os opostos se atraem”, mas esse magnetismo não é garantia de uma conexão.

Sem acoplamento para montar o mapa de valores, a entidade que fortalece a sociedade é apenas um termo para indicar aquele indivíduo como membro originário de tal tronco, mesmo a família sendo o hábitat que concentra a cadeia alimentar, que propicia o alimento do crescimento humano. Mas, por estar num contínuo processo de desinstitucionalização, a tendência é intensificar o fortalecimento da individualização como autodefesa, exterminando os significados de valores como respeito, amor e carinho pelo outro.

Mas... Quem é você quando se recolhe com o seu EU?

Há pessoas que são autênticas arquitetas, levam uma vida edificando máscaras para se esconderem de ninguém além de si mesmas. Acreditando que disfarçarão fracassos e decepções, ensaiam sorrisos, verbalizam sentimentos, fabricam trejeitos graciosos e adotam comportamentos que se tornam referências para muitos... Apenas dramas, coreografias que exigem espaços específicos para serem apresentadas... Pois, nessa passarela de farisaísmos, muitos bem que conseguem desenvolver personagens atraentes, fazer shows fabulosos a ponto de brilharem como astros. Afinal, quanto mais distante a encenação se posicionar do seu universo de realidade, maior será o sucesso e o engano a si mesmo.

Porém, poucos ousam responder uma pergunta que inquieta: Quem é você quando ninguém o vê? O ex-presidente americano Abraham Lincoln rompeu esse silêncio quando declarou: “Você consegue enganar a todos por certo tempo; consegue enganar alguns por todo o tempo; mas não consegue enganar todo mundo o tempo todo”.

Para a maioria, essa desmassificação confunde e é nesse instante que o homem se confronta com o seu íntimo, que habita um sujeito muitas vezes imaturo ou um indivíduo inconsequente. Para simular, converte-se em ator e nas múltiplas personalidades, uma vez mocinho, em outra vilão, particular e privado se embaraçam, pois real e irreal o colocam num paralelo que se torna palco de constantes conflitos — psicológicos, emocionais, existenciais —, exigindo que novas personalidades — intimistas — surjam para não refrear os impulsos do ego.

Entre fugas e conflitos, a imagem se torna tudo, e esta é resguardada por ser o escudo, mas, quando se recolhe no seu revestido universo de medos e temores — onde ninguém o observa —, a máscara cai, e a imagem refletida no espelho assusta, por ressaltar uma personalidade disforme, um caráter pervertido, um ego estilhaçado. E, somente então, percebe que não é ninguém, é simplesmente um ser solitário em meio à multidão, e, sem que perceba, valores já foram consumidos para alimentar esse desejo de romper as barreiras do mundo sozinho.

Por outro lado, regular o egocentrismo numa sociedade que educa para o “Sou mais importante do que você” é um apelo ao individualismo... Pois as famílias designam os seus filhos à individualidade; e, quando não se ensina a dividir em casa, na sociedade a dor, os problemas do outro são “pepinos que cada um descasca, o seu não me interessa” e, quando o relativismo impera, outra lei ainda mais implacável passa a vigorar: “Sou o que desejar ser”, pois a sentença dessa lei é a vontade pessoal e é nesse terreno que se inicia a trajetória de tropeços, com mínimas chances de recomeços.

Muitos abrem caminhos paralelos, não permitem orientações e chegam ao extremo de abdicar do querer pessoal para se submeter às vontades do ego, que, orgulhoso, não admite fracassos. Simplesmente se perde e se defende com desculpas esfarrapadas: “Não foi desejo. Nem vontade, nem curiosidade, nem nada disso. Foi um choque elétrico meio que de surpresa, desses que te deixam com o corpo arrepiado, coração batendo acelerado e cabelo em pé. Foi sentimento. Não foi planejado nem premeditado. Foi só um querer estar perto e cuidar, tomar todas as dores e lágrimas como se fossem suas. A vontade e o desejo vieram depois, bem depois. Não foi um lance de corpo, foi um lance de alma. Não foram os olhos, nem os sorrisos, nem o jeito de andar ou de se vestir, foram as palavras. Uma saudade e uma urgência daquilo que nunca se teve, mas era como se já tivesse tido antes”.

Quando esses tremores provocam a queda da máscara, muitos têm a oportunidade de conhecer aquele político “gente boa” que elegeu para representá-lo, crente de que votou no candidato certo; reconhece o colega que tantas vezes quebrou o seu galho no trabalho, quando, na verdade, queria tão somente aprender o ofício para pleitear a sua vaga; o cristão que reprime o adultério, condena a adoração de imagens, faz campanha nas periferias contra a prostituição, o uso de drogas e pula sub-repticiamente a cerca e bate os seus tambores nas horas de aperto; sem contar com o histórico “amigo da onça”... sempre presente nas horas difíceis, mas, na verdade, sua verdadeira intenção é realmente estar próximo, aguardando o momento propício para dar a rasteira e, quem diria, aquele camarada alegre e divertido é simplesmente um fracassado, usa as aparências como subterfúgios para ser aceito na turma.

É a partir desse ponto que a individualidade perde consistência por permitir ser sugada pelo contagioso vírus do individualismo, fazendo com que o desejo do EU determine isolamento como reverência. E esse é o instante de buscarmos auxílio, pois a vida é um ciclo ininterrupto, e não um filme que pode ser retroagido, congelado e até reeditado para excluir cenas indesejáveis... No telão do existir, muitas vezes as cenas apresentadas são reescritas por figurantes que se transformam em vilões, e por não termos autonomia para escolhermos o final no enredo “viver e existir”, obedecemos à vontade do ego, permitimos ser conduzidos pelo ID e chegamos ao egocentrismo.

Com uma pitada de vontade própria, podemos assumir o comando da trama do nosso viver e, como eficientes roteiristas e diretores, redirecionarmos o curso cujo pano de fundo “individualidade e individualismo” não transfigure a identidade para deturpar o nosso tesouro maior: a personalidade. Pois essa particularidade do indivíduo é tudo e, quando ganha duplo sentido, se perde o elo com o EU. Pois individualidade é fundamental para o fortalecimento da identidade, mas, se permitirmos que o individualismo sobressaia, perderemos o jogo para satisfazer ao pior de todos os sentimentos, o egoísmo.

No centro das discussões, individualismo e egoísmo se confundem, pois muitos criam verdadeiros universos blindados pelo “bem-me-quer”. O clima é tão propício para romances que o amor paira no ar... Eu me enamoro tanto por MIM que o espaço da coletividade é excluído.

Entre batalhas e derrotas, o individualismo perde a guerra para o egoísmo, que, para muitos, torna-se religião, e quando essa religião se transforma em idolatria, o deus “egoísmo” passa a reinar de forma dominante, interferindo na conduta, no agir, no pensar de tal modo que o indivíduo se converte num radar, onde todas as energias convergem ao seu querer, alargando a estrada de vias duplas, onde não é permitido transitar ninguém além de MIM, pois o egoísmo, quando se alia com o individualismo, espaços são compactados; pessoas, comprimidas por não restar ambiente para opiniões, interesses, vontades, desejos e, muito menos, direitos e necessidades alheias.

Os perigos do individualismo
Os primeiros sinais são refletidos nos lares cujas famílias desfalecem, pois a televisão isola o pai na sala; o computador, o filho no quarto; o celular, a esposa na cozinha. O isolamento é de uma dimensão em que laços sanguíneos e sentimentos não são suficientes para proporcionar uma reaproximação e mostra seus frutos: divórcios, violência, separações... Pois o que impera é a exaltação individual... Se não tiver aqui, desarmo o barraco e vou para outra freguesia.

E, dia após dia, a nossa sociedade se subdivide em tribos distintas, retalha-se em labirintos, onde as pessoas transitam, mas não se tocam. Veem-se, mas não se sentem... E a maioria tem receio de olhar para trás, muito menos ousa questionar o que está fortalecendo a crença do individualismo e o que o acarreta.

Nessa arena, poucos se preocupam com valores morais, princípios religiosos, se o que faz é certo ou errado, justo ou injusto... Porque, no universo pessoal do individualista, os fins só justificam os meios se a maior fatia do bolo ficar com ele. Do contrário, é mais justo que os meios — que uso para atingir os meus objetivos — justifiquem os fins.

Mas os perigos do individualismo não rondam apenas o meio social. Muitos pais criam os filhos para si, e não para enfrentarem os desafios do mundo. E, assim, os educam para ganharem sempre, se darem bem em tudo. Quando o individualismo penetra nos caminhos da escola, ganha proporções que desafiam educadores e especialistas, pois suas consequências no espaço escolar podem acarretar numa cadeia de danos, que se inicia com as acirradas competições e continua gerando conflitos que alteram atitudes, comportamentos, impedindo que o processo educacional siga o seu curso natural para formar cidadãos socialmente inseridos no meio.

Trabalhar a individualidade é fundamental para o fortalecimento da identidade, mas muitos chegam à escola repletos de ranços e, por não termos um ensino inclusivo, o individualismo tem as suas bases fortalecidas, principalmente por docentes que se tornaram discípulos do revolucionário sociointeracionismo e o seguem com tamanha fidelidade que não observam seus equívocos — muitas vezes simbólicos — ao testificar que “A criança é capaz de construir o próprio conhecimento”.

É exatamente essa criança, que chega imatura e centrada no seu universo familiar e social, que depende de atenção, cuidados especiais e, principalmente, de orientação para se conduzir pelos labirintos do aprender e, sem esse suporte, muitos se suicidam ou são executados num espaço que deveria ser o ponto de resgate, pois as propostas do programa apresentam considerações evidentes ao enfocar os termos de behaviorismo:

O ato, e não o trajeto, é o dado fundamental na psicologia social e na psicologia individual quando são concebidas na forma condutista, e tem por sua vez uma fase interna e outra externa, um aspecto interior e outro exterior... nosso ângulo de enfoque é condutista, mas, diferentemente do condutismo watsoniano, reconhece as partes do ato que não aparecem na observação externa e acentua o ato do indivíduo humano em sua situação social natural (MEAD, 1934/1982, p. 55).

Nessa quebra de braço entre Educação Individualista x Educação Coletiva, sobrepõe-se a individualista e, dessa forma, Educação e Cidadania não se conciliam para acontecer o que o francês Jacques Delors, autor e organizador do relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI, disse:

A Unesco educação para a cidadania constitui um conjunto complexo que abraça, ao mesmo tempo, a adesão a valores, a aquisição de conhecimentos e a aprendizagem de práticas na vida pública. Não pode, pois, ser considerada como neutra do ponto de vista ideológico.

Mas, no terreno do saber, o individualismo é tão metediço quanto enigmático, pois o educador, ao mesmo tempo que se autoprotege para se resguardar de uma reação violenta impõe, por meio da autoridade, o domínio do território e sem perceber — ou de propósito — expõe o educando ao extremo para atingir os fins do ego e, nesse combinado de idolatria e egocentrismo, depara-se com barreiras para se relacionar numa sociedade fragmentada por tremores que desequilibram: desânimos, angústias... Destruição de valores... Ambições exorbitantes. Muitos não resistem e chegam a desvios de comportamentos: isolamento, uso da ignorância e da violência para extravasar frustrações por perder o domínio dos impulsos que despertam na transição entre o ser e o não ser.

Pois avaliar o homem no seu estado natural é um processo tão intrigado que leva muitos a desistirem dessa busca com receio de se exporem ao ridículo, pois a necessidade de se artificializarem para, assim, exercer poderes sobre o próximo tornou-se alternativa de vida para os que enveredam por esse universo sem formas e leis definidas.

E como vida é o desafio maior da trajetória existir, a necessidade de sobreviver se sobrepõe à vontade humana, e, quando o humano se depara com a cadeia de paredões erigidos pela sociedade, o alerta vermelho puxa o freio de mão, determinando prudência para não se sentir solitário em meio à multidão. Para evitar essa desintegração com o meio e que os atos não se convertam em entraves, cautela é a regra.

Ante tantas dúvidas, muitos se desnorteiam e ficam os porquês... Por quê?

Por quê? Temos tanto medo de olharmos para nós... Apreciarmos os nossos reflexos e nos conscientizarmos do quanto somos frágeis, indefesos... Dependentes do outro? Covardes que somos, esquivamos o olhar tímido, inseguro... Por não admitirmos que dependemos de alguém... De coisas pequenas para sermos felizes.

Por quê? Receamos parar para refletirmos sobre o que nos intimida? A nossa fraqueza! A sensibilidade, a fragilidade... A carência de fé, de confiança em nós, muitas vezes, nos conduz por caminhos que isolam de coisas, pessoas... do mundo... e nos impele a cometer erros por meio de escolhas irreversíveis... Simplesmente por querermos provar que somos fortes.

Nessa guerra, não admitimos derrota e travamos uma batalha contra nós. Fechamos os olhos para a razão e atacamos, ferimos... Quase sempre saímos feridos... Fracassamos, dissimulamos, fantasiamos a realidade por não acreditarmos que a vida é feita de recomeços e que a felicidade são raros momentos de paz e reconciliação... Instantes sublimes em que damos um passo à frente, rompemos os limites do isolamento e permitimos que o coração se abra para o amor e a alma deixe-se levar por um sonho.

E quando amamos, aprendemos a relacionar com o tempo... Valorizamos cada instante como último e temos a segunda grande lição: respeitar limites e limitações... Pois aprendemos a ouvir o silêncio e oportunizamos a NÓS a chance de escutarmos o EU sem ignorar o outro, pois o nosso querer passa a ser o querer do outro.

Para encontrar essa saída, é preciso seguir as trilhas da individuação para amenizar tantos conflitos. Individuar, para que esse conceito central da psicologia analítica de Jung se desenvolva para moldar cidadãos com personalidades capazes de separar individualidade de individualismo, para que não aconteça a individualização.

O humano, de tão único entre os seres da Criação, torna-se uma espécie geneticamente equipada a ponto de ninguém ser igual a ninguém. Se a semelhança física confundir, o cérebro é o diferencial — mesmo gêmeos monozigóticos — e, se não for suficiente, o DNA silencia vozes. Portanto, o individualismo é fundamental para que o individual não seja sufocado.

A individuação particulariza o indivíduo sem excluí-lo do seu meio e, mesmo sendo um desafio para o ego — que deverá se desprender de futilidades para superar a dependência —, é o caminho para o autoconhecimento, como Carl Gustav Jung descreve:

Individuação é o processo pelo qual o ser humano chega ao autoconhecimento, e é levado a estabelecer contato com o seu inconsciente, não só com o inconsciente pessoal (integrando as sombras), mas também como o seu inconsciente coletivo.

E, por ser “[...] um processo contínuo de desenvolvimento da personalidade pela diferenciação psicológica do eu”, propicia estruturas para fazermos escolhas ou decidirmos o que queremos: sermos ilha ou arquipélago.

Afinal, individuar é desprender forças para reter qualidades, agir com um querer racional, não impelido por impulsos... Individuar depende de Nós ambicionarmos ser EU... Ou Nós, com identidade única... Depende de Nós optarmos pelo individual, coletivo... Mas sujeito, indivíduo e ator que protagoniza o próprio viver... Pois ser particular, privado ou público é opção... O que importa é ser “self” — si mesmo — ou até ser ilha... Mas num fascinante arquipélago denominado sociedade.

Os professores clamam por Educação

Os professores clamam por Educação
Nildo Lage



professora
... Em meio aos clamores, discursos engessados preponderam com mero intuito de atenuar fracassos educacionais, incitando corridas incessantes na busca de opções que suavizem a crise. Entre erros, experiências e fracassos, problemas ganham lugares-comuns, e essas falácias, de tão remotas — pois, desde a Proclamação da República até hoje, propostas se confundem —, originam conflitos, acusações ao ponto de diagnósticos desnortearem profissionais. E assim, ideais e objetivos se imergem no espetáculo das preleções políticas que silenciam no fechar das cortinas, dando sequência ao roteiro das farsas “Igualdade de oportunidades educacionais” e “Educação como direito de todos”.

Todavia, se retroagirmos alguns passos, aportaremos em 1549 — Período Jesuítico —, quando a história da nossa Educação se iniciou sem fundamentos nem propósitos para a formação do humano. Durante mais de dois séculos, a Educação elitista arranhou culturas, fragmentou tradições, aniquilou valores, pois o religioso era o alvo, o sentimento a ser despertado... Ler e escrever foram apenas caminhos para se chegar à escola secundária. Educação era privilégio dos ricos.

A situação ficou tão crítica que, em 1750, o rei de Portugal, D. José I, designou o Conde de Oeiras, José de Carvalho e Melo — o Marquês de Pombal —, para retificar os males radicados pelos jesuítas. Este, ao se deparar com o caos, alarmou e, para cumprir a missão, foi impelido a travar uma acirrada guerra, que resultou na expulsão dos jesuítas da colônia portuguesa.

O avanço foi extraordinário na ótica dos pombalinos, que descreveram saltos surpreendentes, mas os professores, mesmo com funções definidas, não eram capacitados, e, por serem mal remunerados, a Educação tropeçou nas próprias pernas e desabou no abismo do descaso.

Mas, como um dos alvos era extinguir os princípios jesuíticos, em 1808 a peleja se exaltou com a chegada da família real portuguesa, dando início ao Período Joanino, e a Educação, que transitava entre fracassos e rupturas, sofreu mais um golpe quando D. João VI deliberou transferir para o Brasil o Estado português.

O impacto deu início ao frenético processo emancipatório e fez com que pedras rolassem e se edificassem bases que, na ocasião, afirmavam avanços consideráveis no processo educacional, como a abertura de academias militares, da Biblioteca Real, de escolas de Direito e Medicina... E a Educação permaneceu em segundo plano.

Em pouco mais de uma década — Período Imperial (1822–1889) —, Educação e ensino se atarracavam. Tanto que, em 1823, na estuação de amenizar as dificuldades, o Império se amparou no ensino mútuo como única alternativa de diminuir a crise educacional. E, no confronto entre o “decurião” — aluno de melhor aproveitamento — e a “decúria” — aluno com dificuldades —, o “decorado” era reproduzido como original e ambos assumiam a desafiante missão de aprender, obedecendo a hodierna tendência “desorientados guiando perdidos”, e a aprendizagem acontecia de forma grotesca, sob a atenção acirrada de um inspetor que mais aprendia do que vistoriava.

No alvorecer do Período Republicano, a chamada República Velha (1889–1929) prometia, mas não cumpriu o desígnio do sistema presidencialista de “formar” por meio da substituição da predominância literária pela científica, pois nem mesmo a Reforma Benjamin Constant, que recorreu à “liberdade e laicidade”, obteve sucesso.

Como veia de escape, no impulso de asfixiar os conflitos de um período complexo, precipitou-se a Reforma João Luiz Alves na esperança de que uma pitada de Moral e Cívica enfraquecesse a crise. Não impetraram grandes conquistas, e foi preciso criar o Ministério da Educação para gerenciar mudanças que arraigassem a Educação brasileira do lamaçal através do esboço de caminhos seguros.

Inventaram o Estado Novo (1937–1945) para que tendências fascistas pudessem criar um norte político-educacional. A ânsia era tamanha que não perceberam o equívoco, mas pior do que o Conficker, introduziram no sistema um vírus que provocaria a doença educacional brasileira: “o impaludismo das tendências”.

Não teve jeito, o Estado Novo envelheceu precocemente e foi ultrapassado por gerações cada vez mais sedentas de novo, e, assim, nasceu imatura a República Nova (1946–1963) para cumprir a incumbência de criar uma vacina com poderes de refrear os efeitos colaterais das tendências. O surto exigiu uma operação recheada de reformas de emergência, e uma nova Constituição de cunho liberal e democrático foi votada.

Entre os entulhos dos desmoronamentos, fórmulas foram restituídas, como “educação é direito de todos”; as sementes das siglas começaram a ser semeadas, como o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac); e a responsabilidade entre Estado e União foi selada.

Não se conteve a desordem, que descambou ladeira abaixo até que alguém decidiu colocar ordem na casa. Aconteceu o golpe de Estado do Regime Militar (1964–1985). Escolas e universidades se transformaram em campos de batalhas, onde guerras sangrentas eram travadas: professores e estudantes presos, torturados e mortos. Voltamos ao marco zero. Os novos comandantes do barco “Educação” inverteram a rota por acreditarem que as propostas eram “comunizantes e subversivas”.

Cai a Ditadura Militar, ressurgem os movimentos pela redemocratização. Inovações de compromissos de emergência eram ostentados em nome de uma esperança que universalizasse o ensino e extirpasse o analfabetismo.

A era digital chegou como um temporal de informações e desinformações. E o professor continua no mesmo, pois a relação histórica entre Educação e aprendizagem não foi rompida para que a Educação promovesse o crescimento humano no espaço escolar, e a sociedade não evolui, porque a Educação busca um modelo pedagógico que delete os ranços, mas não tem audácia para desenvolver uma teoria pedagógica capaz de promover o desenvolvimento humano, a fim de que a formação fortaleça as bases do indivíduo e o projete como ser capaz de reorganizar a sociedade do conhecimento.

O sistema de ensino, por mais que capacite seus professores, esbarra nas dificuldades para educar uma geração criada pela televisão e educada por babás, na maioria das vezes analfabetas, refletindo as rupturas que salientam o colapso de autoridade dos pais. Favorecendo o hibridismo familiar, que cresceu tanto que o mercado de trabalho já instituiu a profissão “mãe de aluguel”, que substitui a biológica em quase tudo, e essa deficiência vem tornando o lar um ambiente cada vez mais artificial, carente de afeto, respeito e consideração pelo outro.

A partir de então, crianças chegam às escolas cada vez mais agressivas por estarem desprovidas de afeto, respeito pelo o outro, elevando a incapacidade para aprender por serem carentes de iniciativas, boas maneiras... Desprovidas de princípios, fazendo com que regras sejam quebradas pela imaturidade, pois aquela formação básica de valores morais, sociais e religiosos não existe mais, porque as mudanças tomaram uma dimensão que princípios se perderam nas crises existenciais entre pai, mãe, filhos e irmãos, desequilibrando as linhagens.

A relativização da verdade...
Não adianta dissimular, fazer de conta que a tempestade são ventos passageiros. Esses problemas sempre existiram... E é hora de professores, governo e sistema de ensino abrirem os olhos para assumirem a história, se situarem ante a crise e compreenderem que educar requer, muitas vezes, humildade para rever atitudes, determinação para inverter cursos... a própria história, principalmente a da Educação no Brasil, que desde a Era Colonial não sofreu grandes mudanças, apenas uma pequena ampliação de ótica pelo fato de que, na era digital, os problemas são mais expostos, questionados e estudados.

E, como lugar-comum não gera mudanças, a escola não tem outra responsabilidade além de aplicar conteúdos, e o professor tornou-se uma mera ferramenta já que aquela “não tá nem aí” com o ambiente de vida do seu aluno, para analisar o seu perfil social, a sua realidade econômica e, o mais importante, a sua estrutura familiar... Pois esse professor foi preparado na tradicionalíssima escola que teve como tendência “dê os seus pulos” se quiser ser alguém na vida.

Entre ficção e realidade, o sistema poda os meios que proporcionam estrutura e condições às escolas, como a ação pedagógica por meio de recursos capazes de promover o crescimento humano. E, por estar estagnado, intensifica os conflitos. Clamores se confundem com ira e se misturam com indignação, pois a ética, que propicia subsídios para que a cidadania impere, é asfixiada pela imposição política, e essa opressão vem se tornando a raiz de problemas que elevam barreiras, impedindo a escola de usar a autonomia, o mecanismo da democracia, para ensinar sem opressão. Pois o século XXI provocou a fusão de tudo: culturas, tradições, crenças, e já é tempo de o sistema preparar seus professores para disseminar valores.

Infelizmente, aos ouvidos do governo, os clamores dos professores são atendidos prontamente. Uma farsa ostentada com salsicha, extrato de tomate e pão; cadernos, lápis e livros transportados em veículos-outdoors que refletem, em cliques automáticos, flashes de uma tecnologia pós-moderna e têm como pano de fundo métodos ultrapassados.

Nesse horizonte de buscas, professores perdem a direção e clamam... Protestam... Reivindicam... Fazem paralisações... Transformam esse espaço num campo minado, um palco em que se desencadeiam batalhas intermináveis com o sistema e o governo.

Até onde podemos confiar na segurança da passagem delineada pela Educação?

Essa nova rota determinará o caminho a ser traçado, pois o novo milênio não alterou apenas o perfil das famílias, mas compactou o planeta com a força da tecnologia, fundindo culturas... gerando como fruto a Geração Alfa, que simplesmente vive o agora sem se preocupar em levantar a cabeça e contemplar o horizonte à sua frente.

Igualmente, por mais que se tenha transfigurado, as bases necessitam de restauração para que a trajetória da civilização humana, sempre sinalizada por exclusões e subalternidades, inverta o curso e enverede por um caminho que leve à paz por meio da boa convivência.

Os que antes eram ignorados, rejeitados — pessoas com deficiências, indígenas, mulheres, negros, homossexuais... — terão que ser benquistos, e não suportados, pois ganharam espaço, autonomia e direitos constitucionais exclusivos.

Os reflexos dessas mudanças já se ramificaram por todas as camadas e segmentos: pessoas portadoras de deficiências adquiriram ambientes específicos, quotas; os índios, mesmo com a lentidão dos órgãos competentes, vêm reconquistando suas terras, resgatando seus valores, exaltando suas culturas; as mulheres, antes sem voz, sem voto, granjearam força, consistência, minaram o capricho masculino e chegaram ao poder; os negros tiveram o reconhecimento, os seus gingados, a sua música, suas tradições, seus sabores... tornaram-se cultura, patrimônio da União; e os homossexuais saíram da zona de excluídos, onde eram socialmente cancelados e foram para a de exaltados, livres para serem, existirem.

Nesse duelo, a diversidade humana se expõe ao extremo nos confrontos para defenderem o respeito às diferenças, em nome de uma justiça — principalmente social — que é distribuída em porções que não promovem a inclusão.

Mas a geração do futuro é incansável e não desiste de lutar por independência. Independência cujo grito ecoa desde a década de 1990, quando as camadas oprimidas decidiram colocar “a boca no trombone”, permitindo que o sentimento de liberdade fluísse, ganhasse força e consistência.

Os primeiros frutos já são colhidos e refletem no crescimento da classe média graças ao trabalho da mulher que deixou de ser “motorista do lar” para se converter em fomentadora e gerenciadora do orçamento doméstico. Contudo, é preciso moralizar para que as barreiras da Educação no País não continuem favorecendo o crescimento dos índices da desaceleração.

Evolução humana... Os entraves...

As tempestades despencadas nas últimas décadas transfiguraram o cenário escolar de tal forma que espécies endêmicas como respeito, amor e tolerância entraram no frenético processo de extinção. Sua biosfera — a escola — se depara com dificuldades para cumprir o próprio calendário, pois a violência rasgou a cartilha e apresentou a constituição do “quem grita mais alto leva a melhor” como tendência do momento. E a escola, onde professor era reverenciado e respeitado, tornou-se o saco de pancada, a válvula de escape do desequilíbrio social, da desintegração dos valores familiares, que vem fazendo dos lares uma associação onde lutas sangrentas são travadas em nome do nada.

E, mesmo com os modernos métodos amparados pelas tecnologias, as faculdades não sabem o que fazer. Derramam chuvas de informações, e quatro anos não estão sendo suficientes para preparar os heróis a serem professores. E muitos aprendem essa lição ao assumirem uma sala de aula e aprendem usando os seus alunos como cobaias... Pois, assim como seus alunos, a sua geração não recebeu o kit básico de valores e chegou à faculdade completamente desprovida, pois em casa não teve nem ao menos os denodos básicos, como noções de honestidade e responsabilidade.

Ao se enveredarem pelos portões da escola, encontraram nos colegas o mesmo vazio, e, assim, o passar dos anos não mudou muita coisa. No desleixado processo educacional, apenas passou de ano e chegou à faculdade, entidade que perdeu terreno para os conflitos sociais e familiares e está inteiramente desintegrada, carente de valores — pois a sua responsabilidade se resume em letras e ciências —, e isso a torna promotora de um processo que exige cuidado para não assassinar a testemunha ocular — o aluno — e deixar mais um crime impune... Não consegue... Pois na conjugação dos universos Educação e necessidades humanas, família, governo e sociedade foram inadimplentes.

Tantos clamores, que transtornam o espaço escolar, fazem da escola um ponto de lamentações. E sem saber de onde partem tantos desalentos, perguntas se perdem no ar: Por que os nossos professores não ensinam bem? Falta de empenho das universidades? Má-formação da escola? Desapego ou carência de amor pela profissão?

Teoricamente falando, a Educação no Brasil apresentou avanços consideráveis graças à pressão internacional que ambiciona o desenvolvimento tecnológico, cultural, científico, social e econômico dos países. Tanta cobrança fez com que a Educação preenchesse apenas as agendas governamentais, que colocaram a “mão na massa” para apresentar números: investiram em tecnologia, abarrotaram as unidades de ensino com programas culturais, e o científico ganhou destaque nas universidades.

Mas olvidaram de criar mecanismos para reavaliar referenciais teóricos, procedimentos, principalmente avaliativos, não deram crédito ao crescimento econômico para educar para o amanhã e realmente trabalharam com afinco para que o nosso sistema seguisse linhas gerais onde pudesse ser traçado um gráfico preenchido por cifras irreais.

Em meio às buscas, experiências e fracassos, os fazedores de Educação não compreendem que desenvolver aptidões, na maioria das vezes, exige intervenções e medidas psicopedagógicas ativas; aperfeiçoar agilidades define caminhos específicos. Caminhos que devem ser esboçados com o cuidado e a responsabilidade de quem delineia a linha da vida, pois transformar comportamentos, para que a fronteira dessa vida não convirja para o abismo, requer envolvimento, cooperativismo e participação para que Educação e professores cheguem à sapiente descoberta de que a verdadeira arte de ensinar não consiste em dar aulas, mas em fazer do tempo e do espaço da sala de aula um atrativo lugar de transformações de vidas, e isso só acontece por meio de projetos, em que trabalhos e desafios se transformam na mola propulsora de educandos e professores que ambicionam converter conhecimentos em oportunidades de vida.

Desafios do professor para educar uma geração sem formação

Na fronteira dos tempos modernos, a Educação dos professores deve ser inspecionada, atualizada para ganharem ritmo e não se distanciarem da sucessão de mudanças provocadas pela globalização, que lançou nações no precipício das crises econômicas, sem computar as variações climáticas que transfiguraram a paisagem do planeta.

Tais fenômenos prenunciam contrafações comportamentais drásticas na próxima década, pois o afã da geração plugada determinará que muitos entrem temporariamente em stand by para recarregar a bateria, suavizar as crises psiquiátricas, se esquivar da depressão e das dependências de substâncias psicoativas que a humanidade terá que ter em mão.

Pois o humano, mesmo sendo fruto de um histórico processo evolutivo, não tem pique para acompanhar o ritmo das alterações, por ser geneticamente vulnerável. Sua aparente força camufla a fragilidade para arrostar o novo — mesmo previsível —, pois na última década as inovações foram instantâneas ao ponto de chegarem antes do amanhã.

Gerenciar conflitos, superar barreiras que se elevam fluentemente provocadas pelas evoluções sociais — que dificultam o ensino-aprendizagem —, é um dos desafios. Para superá-lo, o professor necessita de subsídios para fazer a diferença nesse espaço, onde os avanços tecnológicos, as influências da mídia, transformam comportamentos e determinam que os velhos paradigmas sejam reavaliados para permearem a inter-relação entre a Geração X — professor — e a Geração Alfa — aluno.

Entre os fogos cruzados, professores lamentam e clamam. Clamam por melhores salários, por melhores condições de trabalho... Por um plano de cargos e salários... Clamam tanto que o repertório se esgota e começam a clamar por Educação.

Clamam por uma Educação que não tiveram. Faltou-lhes o básico: a formação. Portanto, não sabem como ensinar para o futuro. Essa deficiência é a barreira que impede muitos de não chegarem ao nível de educador, pois o título de professor não lhes ofereceu contribuições para trabalhar com vidas que dependem de um direcionamento para formar a base do humano e enfrentar os desafios de um mundo cada vez mais competitivo. O educando não é um sujeito disforme, incolor e indolor. O educando é um indivíduo do conhecimento e é exatamente por ser sujeito que conduz culturas, tradições, valores, princípios, que o professor deve dominar os dispositivos que processam informações e dados em habilidades e adicioná-los às perspectivas cognitivas, contextos sociais, familiares e afetivos para compor um ensino à base de conhecimentos concretos.

Lugar-comum... Gênese do câncer educacional

Para encarar os anseios da Educação para, assim, acatar aos clamores de professores, é indispensável uma possante lente 3D para encarar a Educação em ângulos tridimensionais: vislumbrar um passado sem início — pois tudo é copiado — e entender um presente sem horizontes — devido a mudanças bruscas das tendências educacionais, que não têm tempo de amadurecer —, para inverter o curso de um futuro incerto — devido à deficiência de propostas —, a fim de, então, canalizar os alvos para um terreno que amplie os horizontes de vitória.

Como imagem é tudo, o governo adornou a escola com esplêndidos frontispícios, decorou-a com móveis contemporâneos, abarrotou-a de livros... Mas por que não funciona? Por que os investimentos não melhoram a qualidade do nosso ensino?

A resposta é simples: prédios amplos e modernos facilitam? Claro! Computador e internet? Também... Livros? São indispensáveis! Mas o magnetismo que faz girar o eixo para que as engrenagens do sistema funcionem é cognominado humano, especificamente da família dos “professores”, mas esses exemplares devem ter um diferencial, um quê a mais, que é o “saber” e o “querer fazer” a diferença.

Desrespeito ao professor... Um crime contra a vida

A elevação dos problemas sociais dificulta o processo ensino-aprendizagem. Nessa agitação, a vida do professor se torna tensa, abstrusa e reduz os seus horizontes, retardando a complexa arte de educar, por sobressair a face disforme de uma Educação que retrata degradação familiar: crianças e jovens mal-educados, agressivos, individualistas, possessivos... salientando a ruína de princípios sociorreligiosos-familiares através de gestos, atos e atitudes que dificultam uma formação com princípios éticos e morais.

Ante a deprimente realidade, tudo que o professor consegue é preencher o tempo com conteúdos evasivos, por se ver incapaz de gerar alternativas, pois a permissidade dos pais tira a autoridade do professor, a autonomia da escola, transformando o espaço num lugar cada vez mais estressante, onde a violência familiar, a carência afetiva e a deficiência de respeito se manifestam.

Dessa forma, fica cada vez mais difícil encarar os desafios de um mundo moderno, que acelera os passos para alcançar o futuro. E o nosso sistema? Rastejando, alheio aos fatos, com os olhos perdidos no nada... Sem a mínima estrutura para entrar no jogo de competitividade, pois tanto as escolas quanto as universidades entregam ao mercado de trabalho cidadãos semialfabetizados.

O governo bem que tenta. Fracassa. Tenta de novo e volta a fracassar. Concentra a mira na escolha da tendência. Erra o alvo... Num ato precipitado, corre contra o tempo e se perde no tempo, sem conseguir dar um passo adiante para sair da humilhante posição na América Latina. Uma vergonha para uma potência econômica.

Em meio ao fogo cruzado, alguém pergunta: “E o professor?”

Murmúrios anunciam: continuam lá... Tendo que fazer malabarismo para conter alunos ociosos, pais inadimplentes e gestores ditadores... Clamando por uma Educação que deveria chegar por meio de uma formação que fortalecesse as suas bases profissionais.

Essa deficiência de suporte e aporte faz a vida daqueles que necessitam de uma direção se perder pelos vácuos provocados por uma má-formação docente.

A injusta quebra de braço

Virou cultura e já está inserida na grade de emissoras de rádios e televisão. O governo interrompe a programação normal — invade lares com discursos brilhantes, imagens encantadoras, ressaltando suas façanhas e ambições: adultos realizados, uma sociedade justa —, mas não investe, excepcionalmente, no artista que molda vidas: o professor. Nessa guerra desigual, o governo faz uso do poder, da força da máquina, para dominar e aciona o seu possante dispositivo “sistema de ensino”, para ostentá-lo.

O sistema toma mão da influência da mídia para disseminar, muitas vezes, hipocrisias, pois, na sua justa ótica, a Educação trilha o caminho do sucesso... Tão certo que subestima o potencial humano — o professor —, acreditando que físico e tecnológico são o suficiente para oferecer Educação de qualidade.

Não adianta se esquivar. Fazer de conta que tudo “vai bem, obrigado!”. A sentença já foi afirmada: a qualidade do nosso ensino só avançará a partir do instante em que os envolvidos no processo encararem a formação docente como item principal na promoção do crescimento humano em sala de aula.

Se o governo não habilitar esses profissionais para preencherem as falhas deixadas pelas universidades, podem-se alastrar chuvas de investimentos que o rendimento escolar continuará estagnado, mesmo com o salário chegando ao patamar ambicionado pela classe e a carga horária sendo ajustada.

É primordial a consciência de que crescer determina espaço, estrutura, horizontes... Qualidade é fruto de qualidade. Não se colhe bons frutos de uma má árvore, tampouco se conseguirá bons indivíduos de uma má matriz... A genética determinará o perfil da produção, e a nossa Educação é uma “espécie” geneticamente modificada que não vem se adaptando ao nosso clima.

A atuação adversa, de tão precisa, confunde, desnorteia ao ponto de lançar sociedade contra escola... Escola contra professor... Professor contra educando, pois o outro dispositivo indicado — o gestor — na maioria das vezes, em vez de buscar os propósitos da Educação, atende aos interesses do sistema que institui situações que originam problemas.

Sabemos que situações-problema são necessárias para que o educando se situe no próprio universo... Mas é preciso iniciativa, ousadia para inovar, construir para oferecer uma Educação nova, no seio de uma escola onde educandos possam experimentar o doce prazer em estar, o interesse de se envolverem no processo de aprender por serem ferramentas da própria metodologia, não imitações. Pois não bastam conteúdos nem recursos, é preciso desenvolver habilidades para que competências desobstruam caminhos para instituir oportunidades.

É preciso que o professor seja forte e preparado para ensinar sem embaraçar-se, nem obstruir o olhar dos que buscam horizontes para crescer. Para tal, é necessário excluir a profissão de professor que apenas cumpre calendário letivo e nomear educadores que trazem em si a ambição de ser o diferencial no espaço escolar, para satisfazer o anseio de cumprir a missão de ensinar.

Consciência todos temos. O que falta é família, governo e sistema assumirem suas responsabilidades. Pois todos ostentam que a Educação é o caminho da vitória; que escola é o espaço adequado para transformar o rústico em artista por meio dos mecanismos que desenvolvem habilidades e competências. Mas poucos assumem atitudes.

Para atender a esses clamores, é primordial preencher as reticências históricas da educação por meio de projetos condensados, e não programas sem fundamentos que contaminam todos os segmentos, principalmente o econômico, pois esse entrave abre o leque da ausência de mão de obra qualificada, intensificando o ritmo da desaceleração do crescimento do País. E, quando o crescimento se estagna, abduz-se do alvo a qualidade. E sem qualidade, restringem-se as probabilidades de entrarmos na disputa, pois a competição global decreta estrutura, preparação, e, enquanto a assiduidade escolar em nosso país for sinônimo de Bolsa Família, continuaremos excedendo os próprios recordes de repetências — que chega aos absurdos 14,1% —, em que o Brasil atingiu o maior índice dos últimos 12 anos, e o sonho de alcançar os investidores globais — Índia, Rússia e China — continuará estacionado pela ineficiência do sistema educacional, que se limitará em rechear as aposiopeses com números fictícios.

A situação é delicada. Poucos transitam por esse terreno e chegam ao pódio sem sofrer danos. A sentença do sistema é implacável, pois seus soldados estão estrategicamente posicionados e protegidos por seu eficiente exército de “apresentadores de dados” de um governo que se tornou exímio em utilizar números irretorquíveis para escapar das suas responsabilidades.

É hora de mudar o discurso, pois as falácias não asfixiam os alaridos: de um lado, professores clamam por Educação; do outro, Educação clama por professores comprometidos; e, no meio do fogo cruzado, completamente vulnerável, jaz o dependente educando, que clama por uma formação que amplie as suas chances de ser alguém por meio da Educação.

O novo tempo é agora. Se o sistema de Ensino tem pretensões de educar para a sustentabilidade num futuro que já bate à porta, esse é o momento de investir na qualidade da genética, para que essa semente possa germinar uma espécie resistente às intempéries do instável planeta “Sala de Aula”, que a cada dia tem a sua hereditariedade modificada: tio, professor, mestre... educador... Nessa longa caminhada na busca do profissional com domínio de competências para formar humanos em cidadãos ativos, muitas fórmulas foram experimentadas e sonhos interrompidos. Contudo, poucos caminhos foram abertos, pois a ineficiência das ferramentas do Sistema impediram inovações, conduzindo a Educação por veredas onde mudanças inovadoras ainda se limitam a aspirações.

Estamos “mal das pernas”, e pouco se tem feito para fortalecer uma classe que depende de reconhecimento, valorização e respeito para cumprir o encargo de formar cidadãos e tudo que fica é... “preciso”... É preciso ética... Para tratar o professor como profissional responsável pela edificação de vidas... É preciso formação... Para que o professor adquira consistência para enfrentar os desafios, as adversidades de uma sala de aula como auxílio na edificação do próprio universo... É preciso suporte... Para executar projetos que propiciem o crescimento humano... É preciso propósitos... Para que o Sistema de Ensino capacite o professor como base de um objetivo de transformação humana para que a escola, essa fantástica janela aberta para o mundo, seja o caminho que conduza à realização. É preciso responsabilidade... Investir no profissional, pois salário não é investimento, como livros, material didático, tecnologia, quadras de esportes... Não é capacitação nem condições de trabalho... É preciso investir no humano... Livros, material didático, recursos tecnológicos podem auxiliar. Bons salários motivam. Condições de trabalho são aporte... mas é preciso que o governo e o sistema assumam seus encargos e ofereçam uma Educação digna para manter aberta a porta que conduz à vitória — a escola —, mas com condições aos que fazem Educação e com atrativos aos que a buscam como base para construir sonhos... É preciso respeito pelo professor.

Contudo, um “preciso” não pode ser imêmore: é preciso que professor admita “que aprende” ou “que quer aprender?” Aprender é o meio mais fácil de aprimorar a prática. Pois clamar por Educação é cobiçar ser professor com estruturas para enfrentar desafios; usar sensibilidade para captar emoções, anseios... Ter atrevimento para buscar e descobrir que aprendendo se cresce, se aperfeiçoa; e, se aperfeiçoando; se ensina melhor. E, quando se ensina melhor, a escola, que se converteu num palco de conflitos e discórdias, conduzirá os confrontos para um terreno de discussões e entendimentos para transformar a guerra das diferenças em socialização, conflitos em crescimento humano, para que o prazer em estar seja lição, por meio de uma instituição capaz de fazer com que ciência e letras, ideologias e esperanças sejam a base do contínuo processo de crescimento pessoal.

Por isso, é preciso entender que a sala de aula é o ponto de manifestações humanas, de onde se exalam sentimentos, credos, culturas, tradições familiares, carências afetivas, violência... O “querer fazer” do professor só será a diferença se o “fazer” do Sistema — que tem autonomia para determinar o ponto de chegada — acontecer. Se o setor não tiver um alvo definido e mantiver o professor despreparado para esse propósito, dificilmente alcançará índices satisfatórios.

Afinal, ensinar é um artifício delicado e, como todo processo com o envolvimento de vidas, é preciso desenvolver aptidões, explorar talentos e aprimorar habilidades. Por ser um procedimento que exige práticas transversais, não se pode ter receitas prontas, algoritmos milagrosos nem modelos capazes de retificar ou rejeitar diferenças. Do contrário, a Educação será exclusiva, e a arte de ensinar perderá, definitivamente, o seu fascínio. Para tal, é preciso oferecer a Educação do respeito e da valorização profissional, da participação familiar e da escola, do envolvimento atuante e consciente da mídia, para que aconteça a tão ambicionada descoberta da pessoa humana num espaço que atrai milhares em busca do sonho maior: ser feliz. 


Fonte: Revista Construir Noticias

A homofobia: como trabalhar o respeito e a diversidade sexual na escola

A homofobia: como trabalhar o respeito e a diversidade sexual na escola
Nildo Lage




Diversidade de crianças
Todo problema que envolve sentimentos e valores humanos determina ponderação e cuidados para impedir crimes contra o humano. Desde a criação, o homem contrasta as diferenças, transforma-as em rivalidades e, por acatar os impulsos primitivos, declara guerra contra o “estranho”, admitindo ser conduzido pelo ego, que, na maioria das vezes, não reflete atos e consequências, permitindo ser governado pelo “instinto de horda” — tende a andar com grupos de iguais e hostilizar os diferentes —; e, assim, a formação de tribos é inevitável. A partir dessa reunião, o “bloco de lá” é exótico, e essa diferença se torna obstáculo ao ponto de se converter em competitividade, transformar-se em ódio. O tempo se incumbe de gerar conflitos, e os conflitos, em resistência, desencadeiam-se em guerras.

Foi assim com a ciência, a filosofia, com as “bruxas” da Idade Média... as várias etnias... com os judeus... os negros... Na sociedade brasileira atual, as contendas são sobre os casais iguais. Ao assumir publicamente a orientação sexual, gays, lésbicas, travestis, bissexuais e transexuais colocam em xeque a segurança... A própria vida em nome de um direito que não é respeitado: ser livre.

Nesse contexto hostil, situa-se estrategicamente a escola. E, por ser uma passagem obrigatória, lhe é delegada o encargo de propor discussões críticas sobre orientação sexual e cidadania; amenizar os conflitos para propiciar a convivência humana; inserir valores como o respeito... E, ao esbarrar nas barreiras sociais, religiosas e culturais, a escola se vê em contradição entre o pensar, o agir etnicamente e o ser tolerante.

Sem estruturas para oferecer tais suportes, a escola fracassa, e os tremores desse desabamento são sentidos nas ruas de um Brasil que está no topo dos países mais homofóbicos do planeta, porque no espaço escolar esse ódio é disseminado de forma alarmante, instigado por grupos fundamentalistas que chegam ao extremismo. Mesmo com os esforços do Ministério da Educação, que financia projetos para promover a inclusão, a escola não consegue reprimir o preconceito.

É preciso desmitificar esse histórico de preconceito, principalmente num espaço onde tendências, desejos e opções transitam, se colidem, entram em conflitos. Amenizá-los é mais do que um desafio. Torna-se uma missão “quase impossível” para a escola, pois a Educação brasileira precisa construir a própria identidade para destruir problemas históricos... A homossexualidade fundamentada na sociologia e na antropologia é uma velha conhecida da escola, pois, se voltarmos alguns capítulos da história da humanidade, chegaremos à Grécia Antiga e nos depararemos com sinais do homossexualismo praticado em alta escala, principalmente nas amplas sociedades secretas, onde a sensualidade dos gregos era exibida nas orgias em homenagem à deusa Cotito, por meio de rituais sátiros.

Homossexualidade, então, não é um fato novo para que provoque tanta polêmica a ponto de a família e a escola resistirem a encará-lo. Só que essa falta de ação está levando essa crendice ao extremo da intolerância por ser nutrida por um ódio irracional que rejeita, exclui, agride e mata.

Sobreviver nesse campo minado impele a maioria das vítimas ao isolamento, pois os agressores, de olhos vendados e mentes cauterizadas, não aceitam as diferenças, não permitem o relacionamento, nem vislumbram que a sexualidade vai além da biologia, da cultura, da hereditariedade, não tem mero cunho reprodutivo, mas traz em si toda uma gama de sentimentos, influências hormonais e genéticas, e abrem janelas que refletem o universo do relacionamento em múltiplas dimensões, onde, muitas vezes, aspectos imperceptíveis aos olhos da sociedade, como o cultural, não são enfatizados.

Um ponto de partida...
A consciência para compreender que a vida é uma trajetória de perdas e ganhos e, principalmente, de escolhas. Felicidade ou infelicidade dependerão do caminho que se trilha no percurso viver. Amar e respeitar o próximo são regras do Criador. Cumprir ou não é uma alternativa, e é essa decisão que definirá a nossa convivência nesse percurso.

Sabemos que o preconceito jamais será abolido entre os homens, mesmo com aprovação de leis rigorosas, punições severas... Mas é preciso, no mínimo, tolerância, para que as subversões entre as classes, raças e etnias se amenizem, para que a homofobia não se transforme numa arma com poderes capazes de destruir pessoas apenas pela opção sexual, pois a homossexualidade segue a humanidade desde a sua criação, tentar erradicá-la é heresia.

Contudo, deve-se amenizá-la através de uma convivência complacente. É preciso fixar, em mentes preconceituosas, a verdadeira semente do respeitar o “eu” do outro. Respeito é algo que se constrói e se desenvolve entre os homens para que se torne a âncora dos relacionamentos interpessoais. Para tal, basta que cada um viva a própria vida e alargue o caminho para que o próximo possa transitar pelas veredas da sociedade como cidadão, desfrutando do mesmo direito: viver e ser feliz com as suas diferenças e os seus desejos.

Afinal, consciência é uma espécie rara que exige um ambiente propício, terreno preparado, e, por isso, deve ser plantada, cultivada no íntimo como símbolo de humanidade e, por ser regada pelos próprios sentimentos, exige atitudes que alterem comportamentos. Essas atitudes podem ser pequenas coisas, mas, para a minoria rejeitada, é a grande diferença. Pois essa “diferença” é o direito de ser feliz... A felicidade tem um preço. Muitas vezes, esse valor foge do orçamento de muitos que preferem desviar da rota a tornarem-se alvos e serem deflagrados ao se colidirem contra princípios morais, sociais e, principalmente, religiosos.

Homossexual é alvo sempre na mira da poderosa arma homofobia. Ao assumir a opção, paga-se um preço que é tabelado pela família e corrigido pela cultura, e, quando chega ao mercado negro da sociedade, converte-se em temor. E há aqueles que apenas fazem manifestos, mas manifestos não sensibilizam uma sociedade cujo problema está enraizado em íntimos e em mentes que interrompem sonhos, podam direitos, destroem objetivos... A vida.

Essas ameaças impedem muitos de se assumirem... Pois a chave mestra — o medo — refreia e edifica barreiras que se elevam sutilmente, de forma tão ardilosa que só é percebida pela vítima, cada vez que é fulminada com olhares de aversão e repelida por gestos impregnados de animosidade, por não reconhecerem que travesti, lésbica, transexual, gay, hétero, bissexual... são humanos. São cidadãos... O que muda na trajetória viver é a alternativa de vida e a opção sexual.

Os múltiplos olhares

Seria utopia afirmarmos que discriminação e homofobia são fatos triviais, pois a ferida que se abre não cicatriza devido aos frequentes golpes e à infestação do vírus histórico que separam raças e apartam grupos minoritários em plena sociedade contemporânea.

Entender as razões desse ódio é tão complexo quanto chegar aos fatores que originaram o homossexualismo, pois esse universo que determina a opção sexual é gerido pelos hormônios, na maioria das vezes, retratado por controvérsias em que uns acreditam que o homossexualismo é fruto de uma herança genética que decide, por meio do grau de consanguinidade, a personalidade, a aparência física e preferência sexual; ao passo que outros creem na teoria de que o homem é realmente produto do meio, do ambiente no qual o indivíduo recebe influências e valores, que altera comportamentos e pode inverter condutas como fruto de uma educação que delineia a trajetória do humano.

Esses questionamentos, de tão conflitantes, desnorteiam, motivam buscas que nos arremessam ao fantástico universo da neurobiologia, para compreendermos a guerra entre progesterona x testosterona e encontrarmos respostas dos porquês de hormônios iguais despertarem atrações fatais, sentimentos avassaladores ao ponto de romper estigmas sociais, familiares e religiosos em nome de um alvo denominado felicidade por meio do complemento do outro.

A homossexualidade é debatida, questionada, e a urgência de encontrar uma saída se tornou um tema que incomoda, principalmente uma sociedade de tantos contrastes, como a brasileira. É preciso ajustar a lente e direcionar o olhar para atingir óticas indispensáveis à compreensão, uma delas é a antropológica — que não admite generalizações e procura na diversidade cultural as suas respostas para convencer que a homossexualidade pode ser superada através de uma convivência tolerante —, pois, desde a criação, o homem recebe normas características de comportamento masculino e feminino. Daí o pressuposto de que cada sociedade — inclusive a animal — salienta a homossexualidade, acentuando que o comportamento é uma herança do meio, normatizado nos relacionamentos que determinam culturas, prefixam condutas, a exemplo dos imperadores romanos — a cada dez, oito praticavam atos de homossexualismo com jovens.

Esses hábitos não sofreram mutações, pois relatos de estudiosos nos mostram que, na sociedade moderna, não é diferente, já que, a cada ano, a humanidade é mais livre para fazer escolhas, tanto que, na sociedade brasileira, essas manifestações partiam de todos os níveis, e as tradições vêm desde o império — como os fatos relatados no livro História do Império, de Tobias Monteiro, que apresenta uma lista vip, onde artistas, cantores, arquitetos, intelectuais, líderes religiosos, marginais, políticos e até heróis nacionais eram praticantes de atos homossexuais.

O que muda na era do “Clico, já existo” é o perfil social, pois são os contextos socioculturais que determinam “paz ou guerra”. Em algumas culturas, em que isso é “comum”, a tolerância refreia o preconceito; em outras, o homossexual é tratado como objeto desprezível, a ponto de a discriminação chegar ao extremo, impelindo os seus seguidores a cometerem atrocidades.

A antropologia crê que a gênese do homossexualismo é fruto de fatores socioculturais. Como a própria natureza humana determina a satisfação física, a antropologia afirma que o indivíduo sexualmente satisfeito é um indivíduo feliz, e o isolamento faz com que a abstinência desperte sentimentos adversos, principalmente se o relacionamento prolongado for em ambientes habitados por indivíduos do mesmo sexo, como conventos, quartéis, presídios, colégios internos, e até mesmo em famílias — especialmente de baixa renda — em que a ausência do pai leva a mãe a assumir uma autoridade masculina para educar.

Esses olhares causam subversões e bloqueiam mudanças; e, toda vez que são postos à mesa para serem debatidos, originam controvérsias, contendas acirradas. Todavia, quando a quebra de braço incide entre histórico e científico, a força não se equilibra, pois o acordo não acontece devido à inversão de óticas entre genético e psicológico. E, como o científico não apresenta provas convincentes de que a homossexualidade é consequência genética, o histórico salienta ao comprovar com fatos que desde a Antiguidade Clássica era comum — para não se dizer acolhida — a prática homossexual — tanto que, nas olimpíadas gregas, as disputas ocorriam com homens nus (para que ostentassem seus dotes físicos).

Essas afirmações da história se estendem e se enveredam pela mitologia, ratificando que até os deuses Oros e Seti e filósofos como Sócrates e Platão praticavam a homossexualidade, popularizando esse ato entre gregos, romanos e egípcios... E, se ambicionarmos mais, a história permaneceria na Grécia Antiga por mais alguns séculos para nos revelar que até os aios do exército se submetiam aos preceptores como prova de heroísmo e nobreza, por acreditarem que brio e valentia eram transmitidos pelo sêmen, como revelou Platão (428 a.C.–348 a.C.), em O Banquete:

Se houvesse maneira de conseguir que um estado ou um exército fosse constituído apenas por amantes e seus amados, estes seriam os melhores governantes da sua cidade, abstendo-se de toda e qualquer desonra. Pois que amante não preferiria ser visto por toda a humanidade a ser visto pelo amado no momento em que abandonasse o seu posto ou pousasse as suas armas. Ou quem abandonaria ou trairia o seu amado no momento de perigo?


De tão convicta da sua verdade, a história não desaponta quando revela que, em 1973, a Associação de Psiquiatria Americana (APA) certifica que homossexualidade não é doença e a exclui da lista de distúrbios mentais, escrevendo mais um capítulo em 1985, quando o Código Internacional de Doenças (CID) a riscou do seu catálogo, inserindo a homossexualidade no campo das necessidades sexuais humanas.

Esse fato é reforçado quando Foucault, 2000, assevera que a homossexualidade se afasta “da prática da sodomia para uma espécie de androgenia interior, um hermafroditismo da alma”. Nesse roteiro fantástico, tudo o que a história não consegue revelar é o porquê de tamanha intolerância.

Mas o homossexualismo é como a história da humanidade: sempre tem um fato camuflado nas entrelinhas que incita pesquisas e estudos minuciosos, e, por não ter réplicas palpáveis, a biogenética é pertinaz em contradizer a história, ao assegurar que a homossexualidade é uma consequência genética, e garante: algo de errado aconteceu com o indivíduo no seu ciclo de formação, pois essa marca — a genética — é a identidade e, por ter uma associação de fatores que formam o humano, a ineficiência, a ausência ou até mesmo insuficiência de determinados genes podem provocar o nascimento do gene Xq28 — o gene gay —, que ocasiona um distúrbio que leva ao homossexualismo.

Entre questionamentos e suposições, réplicas começam a vir à tona, pois estudos modernos comprovam que psicologia e medicina já conseguem se sentar para uma conversa e, em alguns pontos, já encaram o enigma sem conflitos. E, ao ajustarem as lentes, depararam-se com um horizonte que acreditam poder amenizar a quebra de braço “genética x psicologia” graças à descoberta de que a homossexualidade é uma instabilidade de conduta sexual.

Só que essas teses tornaram-se pontos de partida de novas discussões por serem uma realidade que desmente mitos e descarta as influências sociais, ambientais, familiares, educacionais e até mesmo traumas de infância como fatores responsáveis pela homossexualidade.

E, como sempre acontece, na guerra entre ciência e senso comum, a ciência leva a melhor, pois o pesquisador Jacques Balthazart, da Universidade de Liège, na Bélgica, em sua pesquisa Biologia da Homossexualidade: Gay Nasce, Não Escolhe Ser, chegou — segundo a ciência — na mais sólida conclusão de que “A homossexualidade não é uma opção de vida, mas o resultado do determinismo biológico resultante de influências pré-natais”.

Só que a senhora “sociológica” desmente: a homossexualidade é nada além do que um desvio, uma indisposição mental, que, se tratada, pode ser revertida. Por ser uma instabilidade que provoca o desvio sexual e por entender que o homem é produto do meio determina a heterossexualidade como regra, chegando a salientar que a sexualidade é resultado de uma trajetória sociofamiliar, pois são esses relacionamentos que determinam opções e escolhas, rematando que heterossexualidade ou homossexualidade são as consequências do meio em que o indivíduo desenvolve o seu universo de convivências. Os relacionamentos são cruciais e responsáveis pelas mutações nas chamadas zonas híbridas, na fase de formação da personalidade.

Mas, como o humano nunca se contenta, é preciso ousar, dar um passo adiante, para se chegar ao consultório do senhor sabe-tudo, o doutor “científico”, que tem sempre em mãos respostas cientificamente comprovadas para todos os questionamentos, mas esse mestre é oscilante e não assina a confirmação de que a homossexualidade é culpa da genética, mesmo comprovando mutações que acontecem desde a criação do homem.

Entre anfibologias e improbabilidades, a origem do homossexualismo continua um enigma, mas é uma realidade que fere, exclui... Discrimina... E, se é psicológico ou biológico, doença ou opção, é preciso que a humanidade crie e aplique, em mentes preconceituosas, a fórmula que ameniza os conflitos por meio da tolerância, porque jamais encontraremos respostas que destruam as barreiras sociais e religiosas, pois, da mesma forma que os freudianos acreditam na etiologia psicológica, o pesquisador americano Simon LeVay, do Instituto Salk de Pesquisas Biológicas da Califórnia, defende piamente a etiologia orgânica — hipotálamo — como centro integrador fundamental.

Mas perguntas exigem respostas...
E o desafio para encontrar respostas sobre o homossexualismo é tamanho que nem mesmo a ciência, que se atirou pelos labirintos da mente humana à caça de respostas do desvio de comportamento, chegou à precisão. O Dr. LeVay mergulhou com tanta profundidade que solicitou à neurociência um norte e chegou a um ponto do cérebro humano cujos neurônios formam a estrutura do hipotálamo. Ele estudou 41 cadáveres — 19 eram masculinos que tinham a homossexualidade assumida, 16 eram masculinos heterossexuais e 6 femininos — e se surpreendeu com a incrível descoberta de que os neurônios na região do cérebro onde se localiza o hipotálamo — que comunica extensamente com grande número de regiões do Sistema Nervoso Central — eram maiores nos heterossexuais e menores nos homossexuais.

Ante a descoberta, LeVay supôs que, “se a diferença de tamanho dos neurônios pudesse ser provada em 100% das vezes, isso seria evidência de que a homossexualidade tem base biológica”.

Nesse ponto de convergência, heterossexualidade ou homossexualidade podem ser opção, consequência ou genética. Antropologia, sociologia e ciências biológicas finalmente conseguem criar uma base e falar o mesmo dialeto por encararem o homossexualismo com a mesma ótica ao afirmarem que “hétero ou homo” não dependem do querer do indivíduo, mas de influências, e que a homofobia é um crime brutal contra alguém que não teve autonomia para decidir o “querer ser”.

Em meio às descobertas... O desafio da Educação
É sobre essa plataforma que a Educação deve trabalhar o respeito e a diversidade na escola, para que as diferenças não se transformem em barreiras e a homofobia seja moderada por meio de projetos que trabalhem o preconceito e promova subsídios que amparem as vítimas da hostilidade, pois, mesmo com os avanços, o empenho do sistema de ensino para proporcionar condições de “como trabalhar o respeito e a diversidade na escola”, o multiculturalismo ainda não é explorado o suficiente para proporcionar uma aproximação. Dessa forma, diversidade, alteridade, justiça e heterogeneidade são termos apenas discutidos, questionados e, mesmo que todos (educadores, políticos e o próprio Estado) afirmem que esses são caminhos a serem trilhados, as políticas públicas não propiciam ações para que reinem a cidadania e o respeito.

Se não houver um resgate de emergência, a escola continuará sendo cenário de um enredo onde o vilão “desrespeito ao outro” manterá sob seus pés as minorias etnorraciais, de gênero e, até mesmo, portadores de necessidades especiais. Discutir, reinventar a história e reapresentar projetos são falácias que não mudam a realidade das vítimas, pois, tanto nos currículos escolares como na sociedade, não existe espaço para a diversidade, e, se esta não for trabalhada no ambiente escolar, preconceito e sexismo — conjunto de ações e ideias que privilegiam indivíduos de determinado gênero (ou, por extensão, que privilegiam determinada extensão sexual) — serão temas discutidos desde o setor pedagógico, passando pela direção, ao Instituto Médico Legal, que faz autópsias de vítimas de um crime brutal sem entender as suas razões.

Essa realidade é resultado de um contexto histórico: pais simplesmente não comentam, professores sentem-se receosos em abordar a questão, gestores passam a bola adiante, o sistema não consegue discutir com os envolvidos e, assim, diversidade sexual e de gênero vão ganhando membros, troncos, até se converter no bicho de sete cabeças que atemoriza a comunidade escolar.

Entre controvérsias e mitos, gestores, educadores e especialistas tentam dissimular, mas a homofobia na escola, de tão sutil, é confundida com brincadeiras e, no último extremo — quando as vítimas são agredidas — com bullying. Dessa forma, permitem que direitos sexuais, assim como a diversidade, sejam reprimidos, pois o reconhecimento da diversidade cultural e da pluralidade da expressão de gêneros não é favor que colegas e funcionários da escola devem fazer a essa minoria.

A homofobia no espaço escolar não é apenas um golpe numa minoria que se vê impelida a retroagir pelos pátios, a se isolar em corredores e salas de aula para não se tornarem um alvo. A homofobia é uma flecha que ultrapassa o emocional, desequilibra o crescimento pessoal e reduz o rendimento escolar, pois bloqueia a aprendizagem devido à intimidação, à violência... Que, consequentemente, impele a vítima ao isolamento. Nesse estágio, o desinteresse é maior que a vontade de vencer.

Em meios aos propósitos... Os impedimentos...

Compreendemos que, para falar de homossexualidade no ambiente escolar, devem-se estabelecer cuidados para se fazer uma abordagem segura e descentralizar essa guerra silenciosa, onde os alvos são salientados sem marcas externas, fator que intensifica a sujeição. A escola — sem estrutura — confunde-se entre bullying, bloqueio e preconceito... E, nessa ótica tridimensional, baixa a guarda e declara a regra geral: “Salve-se quem puder”.

Na ânsia de amenizar a tensão, o Ministério da Educação lança o kit anti-homofobia nas escolas. O que prometia ser uma rota alternativa para repelir o preconceito do ambiente escolar gerou discussões acirradas, acendendo um estopim que generalizou a guerra por ter sido vastamente censurado.

As consequências no espaço escolar

A estatística provoca pânico, pois um a cada quatro brasileiros é homofóbico, e, como o espaço escolar é um ambiente que propicia manifestos — principalmente quando há desequilíbrio familiar, degradação dos valores sociais e preconceitos —, a homofobia ganha uma dimensão que sai do domínio do sistema de ensino, pois esse jogo de atitudes, cujo alvo são sentimentos, através do desprezo e da ironia, trazem consequências para toda uma vida. A vítima não se sente apenas rejeitada, perseguida, encurralada... A dor, que muitas vezes leva à depressão, afeta a autoestima e impede o bom desempenho escolar.

Com tantos exemplos de injustiças, já era tempo de o sistema de ensino estar preparado para enfrentar situações adversas, principalmente com a fusão cultural provocada pela globalização.

O veto do kit anti-homofobia pela Presidenta Dilma intensifica a gravidade do problema, por impedir que um assunto crucial à formação do cidadão deixe de ser trabalhado no espaço escolar, pois a homofobia não provoca apenas dor, tristeza às vítimas, é um problema com graves consequências sociais, psicológicas, emocionais, e, pelo fato de a sala de aula ser um espaço de revelações e por não ter disciplinas específicas para se trabalhar valores e respeito às diferenças, o preconceito ganha proporções assustadoras.

Agilidade é a palavra de ordem; cuidado deve ser a regra para preparar a escola com estruturas que ofereçam uma Educação multicultural, para que o “desprezo e o preconceito” sejam abolidos de um espaço onde o crescimento humano é o propósito.

E, se esse propósito não for atingido, guerras ainda mais sangrentas serão travadas no seio de uma sociedade que não respeita o individualismo. Nesse fogo cruzado, muitos terão sentimentos sufocados, desejos contidos, vidas interrompidas, pois serão alvejados pelas flechas dos dois paralelos: de um lado, religiões que se baseiam nos princípios bíblicos; do outro, a sociedade machista, preconceituosa. E, no centro do motim, o governo — mesmo sancionando leis rigorosas e aprovando o matrimônio com indivíduos do mesmo sexo. A maioria dos casais ainda é perseguida, rejeitada como Adônis e Narciso na Grécia Antiga.

A carência de atitudes para amenizar o problema preocupa autoridades e especialistas, e foi necessário criar uma escala — Escala Alport — para medir a intensidade desse preconceito, pois esse sentimento, de tão intenso, desperta o ódio que é manifestado de forma brutal.

E, como todo preconceito, a homofobia se inicia de forma sutil, muitas vezes com brincadeiras — aparentemente inofensivas —, como piadas. Esses atos são a largada de um jogo cruel, o Nível 1 de uma vicissitude que posiciona a vítima no ponto de partida da antilocução. Esse passo é a antessala do inferno, porque desperta medo, provoca desequilíbrio emocional e traumas psicológicos... Pois os ataques são fatais, com poder de estilhaçar o ego, a autoestima; e os mapas das investidas são traçados minuciosamente.

Sobreviver nesses labirintos decreta ao homossexual abrir trincheiras de defesa e cuidados de quem transita num campo minado, pois o Nível 2 desse jogo de desigualdades não tem regras nem armas definidas, apenas determina que se esquive para que os conflitos sejam evitados por meio do contato.

Nesse sinuoso percurso até o Nível 3, é preciso atenção, raciocínio rápido, para criar trincheiras de defesa em meio aos fogos cruzados, e essa defesa, na maioria das vezes, conduz ao isolamento, e esse é o início do mal, pois a discriminação nesse nível é palpável. Muitos simplesmente abrem mão de sonhos e abandonam oportunidades.

E, como todo jogo que tem a violência como estratégia, no homofóbico, o alvo da maioria é destruir a minoria. Nesse jogo, ao atingir o Nível 4, as vítimas estão encurraladas... Salientando que os níveis anteriores foram introduções para se chegar ao Nível 5, em que ataques físicos levam ao extermínio, pois a minoria é entrincheirada nos paredões de uma sociedade que não cumpre deveres nem respeita direitos, muito menos opções sexuais.

Esse jogo evolui gradativamente e todos têm ciência de que é impossível a lei asfixiar sentimentos indomáveis como ódio, que aparta, destrói; ou conter gestos, como a violência, que interrompe caminhadas; suavizar o preconceito, que tortura, enclausura... Mas é possível trabalhar as diferenças, inserir valores nos conteúdos escolares, para que essa minoria seja vista como cidadã, respeitada como ser humano, pois o amor em si impõe regras, determina limites e tudo o que deve ser feito é respeitá-lo. Se não for possível amar o outro como ele é, deixe-o no seu mundo sendo feliz à sua maneira.

O problema exige urgência para ser suavizado, pois, nas últimas décadas, o mundo se desenvolveu de forma espantosa, principalmente no campo tecnológico, mas interrompeu a evolução humana, a ponto de tabus históricos, como o preconceito, não serem superados, e mesmo a ciência, que proporcionou tamanha revolução, criou teorias e soluções para o comportamento sexual, não conseguiu compor a fórmula para transformar mentes capazes de centrar o seu poder para destruir o outro simplesmente por ser diferente.

Sexualidade não é só a manifestação do desejo impelida pela atração física, que seduz e desperta os instintos... Sexualidade é sentimento, que acorda e domina, altera comportamentos, rompe tabus... E é lastimável como nas ruas e, principalmente, nos sites de relacionamentos, deparamo-nos com grupos que se organizam para praticar a homofobia... Essas ações não são apenas agressões ao humano, mas um desrespeito aos sentimentos, e essas investidas arremessam vidas por vias clandestinas no seio de uma sociedade que abre corredores para escoarem os excluídos pelo ódio à homossexualidade. 

Fraternidade e juventude

Fraternidade e Juventude
Nildo Lage






Enveredar pelo universo da juventude é acarear um mundo de questionamentos, cujas respostas chegam — na maioria das vezes — pela prática, pois os pais, que devem ser a primeira referência do indivíduo, omitem-se e adotam a educação moralista, que conduz aos desapontamentos... O que quero? Sexo? Família? Droga? Amor? São perguntas que ecoam e silenciam sem respostas. A inexperiência induz a práticas errôneas, e, assim, muitos se perdem nos caminhos.

O silêncio dos progenitores e a omissão da escola originam um clima de isolamento, e muitos partem para a busca de respostas que povoam, tumultuam cabeças de uma multidão de dezenas de milhares de meninas entre dez e quatorze anos que engravidam por ano e outras tantas de meninos que enveredam pelos caminhos da criminalidade e das drogas para preencherem vazios existenciais.

Sem guarida, refugiam-se nas tribos, e, longe dos pais, a regra é alterada e passa a imperar o “Quem decide a minha vida sou eu”. Praticam excessos que, posteriormente, resultam em sequelas que marcam vidas. Nas últimas décadas, o mundo deu passos impelido pela evolução tecnológica, expondo o homem às intempéries de um tempo que não consegue acompanhar.

Ante o colapso, é impossível calar: Por que fraternidade? Por que juventude, e não juventudes? Qual a necessidade de relacionar uma com a outra? Quais os perigos que rondam as juventudes da atualidade? Qual o papel dos segmentos sociais: Igreja, escola, governo e família nesse contexto para que se atenda ao chamado de Isaías 6,8?

Será que tamanha deficiência de amor ao próximo é consequência do corre-corre da vida moderna, que rouba o tempo do amor, boicota o espaço do carinho, eleva barreiras que evitam um gesto, um olhar, um toque? É certo que os tempos mudaram, mas o ser humano é o mesmo... Pelo menos, deveria ser assim... Os reflexos não estão distantes. Décadas atrás, ainda existia companheirismo. Hoje, predomina o Eu, mesmo consciente de que o Outro é tão único que não pode ser substituído, subestimado... Mas Eu estou no topo dos direitos... O Outro que se vire; mesmo sendo uma fórmula única, resultado da adição de valores, princípios, sonhos e sentimentos, devo ser o primeiro da fila.

Portanto, falar para a juventude é um desafio. Se fosse há algumas décadas, bastava voltar a cabeça e reviver momentos dourados, em que o peito palpitava com emoções que explodiam com um toque, um gesto, um olhar... Mas a juventude da geração Z já nasceu faminta de novo. Tem tanta energia quanto as anteriores, mas vive a fase na mais pura adrenalina... Droga, sexo... Violência... O superávit de energia é um convite para romper tabus e tudo que falta é direção, compreensão, limites... pois a família permitiu que as muralhas de valores fossem demolidas.

Sem referências, a imaturidade se converte na maior armadilha, impelindo muitos a enveredarem por caminhos que deixam marcas, cicatrizes. Assinalando um período na vida do ser humano em que a identidade é condensada pelos paredões de um meio que determina resistência para não ser esmagado pelos mecanismos que transfiguram geração após geração.

Para inserir a fraternidade nesse meio tão infestado e suavizar o clima dos relacionamentos, é preciso persuadir muitos a renunciarem de propósitos pessoais e voltarem o olhar para o coletivo. Afinal, conciliar fraternidade e juventude é um repto que, muitas vezes, excede a capacidade da família e determina como auxílio a estrutura educacional para acumular os ingredientes básicos que proporcionam o crescimento humano.

A escola necessita de suporte para atrair as novidades e de liberdade para que o dinamismo desperte a inventividade para usar as tecnologias a favor da educação... Se a Internet fascina os jovens, por que não usar essa ferramenta e transformá-la em instrumento de discussão em sala de aula? São tantas opções de endereços alternativos que o professor pode oferecer para desenvolver a inteligência e turbinar o cérebro. Pode utilizar as redes sociais para promover intercâmbio com outras escolas, dentro e fora do País, e em regiões que estejam sendo estudadas — a interdisciplinaridade —, sem poupar imagens e vídeos. Ou a escola se alia às tecnologias ou ficará cada vez mais monótona.

O “Eis-me aqui! Envia-me” (Is 6,8) é incitação ao jovens, pois tudo que ambicionam é ir, buscar, sentir... Para, simplesmente, viver. Se não tiverem uma base familiar, princípios religiosos, valores sociais, desconhecerão o sentido de fraternidade, e a passagem bíblica acima citada, cujo profeta Isaías atende ao chamado do Senhor, terá o sentido invertido. A geração do prazer atenderá ao chamado do mundo, que expõe num painel luminoso suas delícias: bebidas, drogas, sexo... Badalações... Para, em seguida, apresentar a conta: violência, tortura... Desespero e morte. O “Ide e fazei discípulos entre as nações” (Mt 28,19) formará uma legião de seguidores nas cracolândias, praças, que, consequentemente, elevarão o número dos discípulos da violência, que superlotam os presídios.

Influências da mídia e das novas tecnologias — redes sociais — no comportamento dos jovens de hoje em dia

Não teve alternativa. O mundo se curvou ao coercível poder da tecnologia, e o ser humano tornou-se dependente dessa ferramenta. Muitos já não sobrevivem sem Internet, celular; e, na era do Android, só não se conecta ao mundo quem não ousa baixar, na rede mundial, um simples dispositivo que captura sinais, pois a indústria de celulares, smartphones e tablets evolui com tamanha agilidade que os lançamentos do mês anterior já se tornam ultrapassados.

É preciso admitirmos que a tecnologia facilita a vida do homem em todos os momentos, inclusive na hora das compras, pois celulares possuem aplicativos com recursos para escanear o código de barras dos produtos, comparar os preços, apresentar a melhor oferta em todo o País e orientar o consumidor a dar aquela tradicional “pechinchada”. Se o cliente desejar evitar embaraços na hora de passar o cartão, pode acessar com extrema segurança a sua conta bancária, checar o saldo e fazer transferências.

Não adianta nos esquivarmos... A sentença já foi decretada. E a juventude já está cadastrada nesse sistema, pois a geração da era tecnológica está plugada e atenta às tendências. A televisão, com seu poder de disseminar influências, altera comportamentos, mira no alvo e dispara a sua possante arma engessada na grade de programação que atrai aos milhões e que, no dia seguinte, está refletida nas ruas e, principalmente, na escola, a exemplo da novela Carrossel.

A influência é de uma dimensão que, em salas, pátios e corredores, crianças se incorporam nas personagens, e o que mais se vê é bullying, racismo e preconceito camuflados nos “Cirilos”, “Jaimes” e “Lauras”, pois as crianças chegam a assinar nas provas o nome e, na frente, o do personagem que incorporou. Essas atitudes são sinais de que a geração alfa, que já é educada pela televisão, romperá o laço de afeto com a família se a mesma não reassumir o seu papel na Educação.

Barreiras que impedem a conexão entre Educação, tecnologia e redes sociais.

O universo virtual tornou-se o ponto de encontro de jovens. Entre plataformas e salas de relacionamentos, muitos constroem dupla identidade, viajam, sonham... Materializam sonhos... As opções são tantas que entre MSN, Orkut, Twitter, Facebook, Flickr, Myspace, HI-5... Vidas se encontram, complementam-se, formam-se comunidades, pessoas se expõem pela necessidade de existir e, assim, se aproximam, fazendo com que a comunicação — essencial entre os homens — converta-se em moda. Estar conectado é uma necessidade tão urgente que muitos se desligam da vida para se manter plugados, transformando as redes sociais na sua segunda pele, fazendo da atividade online no Brasil uma das maiores do planeta.

Mas a Internet não é só emoção, “Prazer em conhecer”, pois, como todo terreno fértil onde cada um planta o que ambiciona, rega e ornamenta o próprio mundo, pode enriquecer muitos, como estudantes e professores, com abastados conteúdos visuais e audiovisuais que facilitam a aprendizagem.

Tudo o que se deve ter é cuidado, pois é nesse território de armadilhas que muitos são atraídos pelo magnetismo negativo e cometem descuidos fatais ao deixarem pistas como endereços, número de telefone, dados pessoais... Fotos que se tornam ingredientes das receitas dos que transitam rastreando cada milímetro do universo virtual à caça de uma vítima — os hackers — com mero intuito de lesar.

O uso das redes sociais no espaço escolar é mais do que plugar alunos e professores... As redes sociais promovem o envolvimento entre as culturas, traduzem as línguas, delineiam geografias... Histórias desvendam os segredos do mundo por meio da interação que aproxima, envolve, compartilha experiências de uma geração que se relaciona com o mundo por meio do Orkut, do Twitter, do Facebook... Esses recursos são tão importantes para promover a Educação da era digital que o professor Edvaldo Couto, da Universidade Federal da Bahia, questiona: “Se as pessoas estão cada vez mais conectadas, o que se pode fazer conectado na Educação?” Se Governo e sistema ainda não despertaram para conscientizarem os profissionais da Educação, é fundamental que adotem as sugestões do professor, que remata: “Onde há mais pessoas conectadas, há mais inteligência coletiva. Assim deveria ser”.

Como evitar riscos nas redes sociais

É preciso cautela, atenção redobrada, principalmente no ambiente escolar, ao inserir no seu sistema a moderna Educação da era do “Clico, já encontro você”, pois usar as redes com fins educacionais é o caminho para tornar as aulas mais atrativas, mas se desviar do foco poderá ter resultados negativos. Isto porque as redes de relacionamentos, como o Facebook, MSN, Orkut, promovem o intercâmbio, mas, por outro lado, influenciam a ponto de atingir a autoestima e provocar desvios comportamentais, entre eles o narcisismo, que usa a rede como plataforma de autoprojeção, em que dotes físicos, intelectuais e até mesmo personalidades marcantes transformam “sapos” em príncipes, “pererecas” em princesas; reis e rainhas assumem o trono, pois a seção “Sobre mim” aceita tudo, inclusive fotos de rostos belos — na maioria, falsos —, e, por ser uma forma de relacionamento superficial, muitos usam esse instrumento como arma para atingir pessoas.

Pais, professores e sistema de ensino precisam despertar e não permitir que seus filhos se tornem instrumento de manobras da tecnologia. Esse canal, que nos conecta ao mundo, pode ser usado de maneira pedagógica e pessoalmente correta. Compartilhar é o melhor método para crescer e podemos compartilhar sonhos por meio de arquivos, ideias, projetos, intenções, sentimentos, conhecimentos e até imagens na busca de soluções. Afinal, as redes sociais são responsáveis por 62% do uso da Internet no Brasil, portanto não podem ser encaradas como caminhos que levam ao abismo.

Nas redes sociais, todos são perfeitos — pois as virtudes dos sonhos são inseridas no perfil —, lindos — afinal, o Photoshop chegou para fazer lipoaspiração, dar cor, brilho —, fazendo desses locais de encontro não pontos de descobertas, mas de contradições, onde linguagens são invertidas para traduzir intenções, satisfazer egos, vaidades... Sonhos, devaneios, que levam muitos a se apartarem de pessoas queridas da vida real e se transformarem em verdadeiros “Platões” de plantão ao assumirem pseudoautoria, principalmente no Twitter e no Facebook.

Como todo uso excessivo, a dependência é inevitável, e a geração Y já se tornou subordinada à tecnologia. Milhares de pessoas não conseguem sobreviver sem Internet e celular, pois a necessidade de sair do mundo real é tamanha que muitos se evadem pelos caminhos do mundo virtual e não sabem a hora de desplugar nem o momento de voltar para casa... Provocam o pesadelo de pais que não conseguem controlar seus filhos, mesmo com terapias e tratamentos clínicos.

Equívocos da mídia sobre a juventude brasileira

Esses equívocos são históricos, pois a visão da mídia é fazer crianças tendenciosas, jovens dependentes para, assim, formar adultos consumistas.

O reflexo está na histórica propaganda dos cigarrinhos de chocolate Pan, que marcou os anos 1980. Nessa época, o tabagismo estava em alta e a mídia explorava essa tendência em comerciais de tirar o fôlego. Como o monopólio imperava, criou-se a moda dos fumantes... Um glamour reservado aos descolados. Acender um cigarro num restaurante e até mesmo em aviões era um gesto de extrema elegância.

Como todo mercado tendencioso, o fabricante dos cigarrinhos de chocolate ao leite Pan investiu pesado, apresentando, em suas embalagens, crianças com poses de fumantes, devorando os “saborosos cigarros”, com o slogan “O que não mata, engorda”.

Juventude no plural, não no singular

Essa fase fantástica do ser humano — a juventude — não pode ser no singular, mas no plural, em função dos diferentes tipos de pessoas, de tribos urbanas e de etnias. O homem sempre viveu em tribos, e é exatamente por ser um animal social que é impossível “ser uma ilha”, portanto, individual é um termo que não se enquadra a uma espécie que, desde a criação, o próprio Criador certificou de que não devia sobreviver sozinha, ou seja, no singular. Necessita de um complemento que faça da sua vida “um plural” e esse plural é a junção que dá sentido à existência, complementa-se com o outro, mesmo com o nascimento de exemplares raros que adotam a solidão como filosofia de vida ou se agarram ao egoísmo como proteção pessoal a ponto de cultuar o Eu para satisfazer o ego.

Iniciar uma conversa sobre juventude exige óticas modernas, porque juventude não pode ser encarada isoladamente, pois essa singularidade assassina o plural... São vidas que buscam uma identidade, sonhos que necessitam de uma base para edificarem um presente, desejos diferentes, mas de fundamental importância para a formação da identidade. Portanto, juventude deve ser encarada no plural para que as diversas tribos encontrem a identificação sem que seja necessário entrar em conflito com os diferentes grupos étnicos, sociais e religiosos.

Portanto, ao falar de juventude é preciso ter cuidado para não atropelar contrastes de uma sociedade multicultural, na qual o jovem não tem horizontes definidos, pois o acesso a projetos, principalmente à formação, são bloqueados, provocando a interrupção de planos de vida numa fase em que a autodeterminação é uma passagem obrigatória à formação da identidade.

Encarar a juventude no singular é generalizar o humano como um todo e permitir que a complexidade que provoca transformações psicológicas, políticas, biológicas, sociais, culturais e, principalmente, ideológicas não seja respeitada, porque juventude é a fase da busca de identificação, do reconhecimento do Eu... Juventude no singular é simplesmente uma fase, mas juventude no plural é uma trajetória de reconhecimento, de crescimento pessoal, em que experiências tornam-se rotas; situações, lições de vida. Por isso deve ser expressa no plural, para Nós nos encontrarmos, trocarmos conhecimentos, dividirmos sonhos, compartilharmos fantasias e para nos desenvolvermos como ser humano.

Pois é exatamente o confronto das diferentes personalidades que promove o amadurecimento; é do relacionamento das tribos, principalmente urbanas, que geram a aprendizagem, graças às diversas situações que propiciam o fortalecimento cultural e o respeito pelo outro.

Se essa fase tão vulnerável do humano for singularizada, nossa sociedade, já fragmentada pelos conflitos, estará cada vez mais desprovida de jovens politicamente ativos e socialmente corretos, tendo tão somente sujeitos passivos aos problemas coletivos por imperar a individualidade.

Porque a família já não encara tais conflitos com a mesma responsabilidade, a escola não tem estruturas para oferecer suporte, e assim a juventude segue na vanguarda de uma sociedade repleta de labirintos que levam a universos que não auxiliam os jovens na trajetória de transformações e escolhas, em que decisões são tomadas na flor da sensibilidade, impelidas pelos hormônios, que conflituam com valores e sentimentos, desejos e princípios. E o jovem, como sujeito do seu próprio tempo, não se sujeita à concepção do tempo daqueles que acreditam conhecer o caminho para traçar a rota mais segura.

Esses conflitos entre imaturidade e maturidade são a ponta do iceberg que provoca o naufrágio de muitos que buscam ajustar a ótica para adquirir uma visão de mundo, das coisas, das pessoas, como acredita Peralva (1997), p. 23: “Enquanto o adulto vive ainda sob o impacto de um modelo de sociedade que se decompõe, o jovem já vive em um mundo radicalmente novo, cujas categorias de inteligibilidade ele ajuda a construir”.

Por isso, juventude deve ser encarada no plural, para que a pluralidade valorize, acate as particularidades étnicas e culturais das tribos para auxiliá-las na superação das disparidades socioeconômicas, principalmente no espaço escolar, e assim amortizar, no gráfico, uma vergonha nacional: a discriminação sociorracial, para que a juventude, tão mal-entendida, torne-se poesia escrita e reescrita todos os dias e seja inspiração para as novas juventudes, que, com certeza, farão o mesmo pedido: deixe-me ser Eu... Porque preciso de autonomia para fazer escolhas, enveredar pelas minhas trilhas, cultivar o meu mundo e desvendar o meu ser no tempo do meu Eu.

Por isso, deixe-me ser Eu... Como ato de respeito à minha liberdade, porque é essa liberdade que fortalece as minhas asas para voar, tocar o céu... Chegar ao infinito e conquistar o mundo... Sei que vou errar até encontrar o que busco, vou bater com a cara no muro, brigar para proteger as minhas conquistas... Mas não vou desistir... Vou tentar, errar... Tentar e errar de novo... Mas esses fracassos são necessários para que eu cresça.

E, já que meus atos são mal interpretados, ouçam o meu silêncio, que fala por mim: deixe-me ser Eu... Mas do meu jeito, no meu espaço, no meu tempo, pois tudo o que quero é somente uma chance para experimentar se meu Eu quer, se meu Eu não quer... Mas preciso ser Eu... Meio desajeitado, um tanto rebelde... Mas não louco, nem drogado... Pois não mudei de nome, de identificação... Sou apenas um jovem que busca a construção da identidade... A existência numa sociedade de selvagens... Tudo de que necessito são referências, valores e princípios que me ajudem a crescer como ser humano para ampliar o meu leque de oportunidades... Não quero que sejam fraternais, apenas coerentes para que... deixem-me ser Eu!